Ampliando a sala de aula

João Henrique Amaral Fontenelle – Psicólogo e Psicopedagogo

Resumo

O presente relato refere-se a 6 meses de práticas realizadas em uma Escola Municipal de Belo Horizonte, quando então a Diretoria Regional de Educação/Pampulha buscou apoio da Diretoria Regional de Saúde/Pampulha, para a construção conjunta de estratégias de enfrentamento ao fenômeno corte/cutting nas escolas do território. Os estudos iniciaram-se no mês de novembro de 2018 e dispuseram suas primeiras ações locais em uma escola piloto, em março de 2019. No primeiro momento, buscou-se estudar o fenômeno através de referencial bibliográfico e escutar os professores e demais corpo pedagógico da escola. Para tanto, reuniu-se profissionais da saúde, tais como, enfermeiros, médicos, assistentes sociais e psicólogos, objetivando a criação de ações para o enfrentamento do fenômeno. Realizou-se um recorte de 180 alunos, abarcando seis turmas do 8º e 9º ano do ensino fundamental, totalizando seis 6 encontros para cada turma. Firmou-se que os profissionais da saúde realizariam rodas de conversas com os alunos, a fim de fomentar um espaço de escuta, acolhimento e expressão, como proposta para o endereçamento de suas demandas de corte.

 Palavras chaves

Educação; escola e grupo.

 Introdução

Intitulado Ampliando a Sala de Aula, o projeto objetiva possibilitar espaços de convivências dentro das escolas, entendendo que a formação humana precisa estar articulada ao desenvolvimento cognitivo.

Conforme se preconiza a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), cumpre às escolas ofertarem espaços de educação emocional para os estudantes, uma vez que tais capacidades se fazem imprescindíveis para um aprendizado exitoso. O assunto já está exaurido, mas quais estratégias devemos organizar para nos ajudar neste desafio?

Corroborando com esse raciocínio, Edgard Morin (2009) aponta que o fracasso de nossa educação é decorrente de uma “hiper-disciplinarização” dos currículos, a escola veicula um saber compartimentado muito aquém das necessidades de nossa época, impondo ao aluno um ambiente desconhecido por ele.

O autor propõe uma reforma em nosso pensamento, onde se possam articular inúmeras disciplinas e oferecer ao educando conteúdos com maior “vitalidade e fecundidade”.

O que Morin nos ensina é, que, espaços escolares que propiciam ao educando construir um saber sobre o mundo que o cerca, permite a ele estabelecer um vínculo mais sadio e vigoroso com os objetos do conhecimento.

Nesse sentido, as rodas de conversas nas escolas apresentam-se como uma poderosa ferramenta pedagógica para o Ensino Básico, pois proporcionam aos envolvidos um momento de empoderamento e crescimento pessoal; competências fundamentais para o desenvolvimento do pensamento crítico, instância tão importante quanto o pensamento analítico para os processos de aprendizagem.

São ações que nos permitem acreditar que através de um movimento de expressão e aperfeiçoamento da comunicação, os alunos possam refletir sobre si mesmo e atuarem como protagonistas em seu processo de aprendizagem. Para que haja aprendizado, é preciso aproximar o sujeito aos signos de sua cultura e as relações interpessoais entram neste fluxo enquanto um eixo norteador. (ROGERS, 2009)

Ao desenvolver um espaço de interlocução, escuta e acolhimento de diferentes opiniões, levamos para dentro da escola conceitos fundamentais para o processo de aprendizagem, tais como, afetividade e emoção.

Essa troca de experiências e saberes possibilita ao aluno uma melhor assimilação do conteúdo lecionado em sala de aula, e o que nos subsidia nesta fala, para além de qualquer postulado ou teoria, são as nossas experiências enquanto regente.

Em consonância com este pensamento, Moreno (1998) propõem encararmos os Temas Transversais enquanto um eixo vertebral para o ensino básico. Para a autora, há uma necessidade de se trabalhar a formação cidadã dos nossos estudantes antes de adentrarmos no campo pedagógico.

Nesta perspectiva, dinâmicas de grupo, rodas de conversas e a presença de profissionais de diversos campos dos saberes, podem ser integradas ao rol de atividades das escolas do ensino básico.  A finalidade destas ações é fazer com que os educandos se debrucem na construção de uma juventude crítica, participativa e implicada em sua relação com o conhecimento.

Dessa forma, os cortes foram apenas mais uma das inúmeras notificações dos equipamentos escolares em seus Centros de Saúde referência.

Fenômenos que impossibilitam o sujeito de aprender, mas que estão intrinsecamente atrelados a algo que não é pedagógico; nossos afetos, nossas paixões, nossas condições de amor… Para além de uma ação pontual ou estratégia de intervenção, a presença da diretoria regional de saúde nos equipamentos escolares do território se deu no intuito de fomentar uma construção conjunta de metodologias que possibilitassem uma educação integral para o educando.

Desenvolvimento

Para o alcance dos objetivos propostos, utilizou- se dinâmicas em grupo, rodas de conversa e música. O modelo de grupo proposto por Carl Rogers (1994) consagrou-se um grande aliado na execução deste trabalho. Objetivávamos despender estratégias de cuidado que estimulasse a abertura à experiência e ressignificação de afetos através de uma proposição metodológica com ênfase na relação dialógica dos envolvidos. Encontramos no referido autor os alicerces para nossas construções.

Pautado sob esta ótica, elencou-se distintos temas, de acordo com as sugestões dos participantes, para serem trabalhadas em cada encontro, por meio de interação coletiva, foram eles: autoconhecimento, depressão, ansiedade e ações afirmativas. As estratégias convidavam os alunos a dissertarem sobre os temas através de técnicas que enfatizassem o diálogo com seus pares, tais como: dinâmica da teia, associação livre, dentre outras.

Para além das agendas em que executávamos as práticas, retornamos algumas vezes à escola para outras finalidades, tais como reuniões de equipe, e éramos sempre abordados pelos alunos, que queixavam de nossa ausência e diziam o quão importante tinha sido os encontros. Foram os próprios, os primeiros a reconhecerem a importância de um espaço para trabalhar as suas relações interpessoais através da escuta e do acolhimento.

Mesmo aqueles que não falaram, manifestaram publicamente que estavam com vontade de falar, mas “não conseguiam”, ou “não tinham coragem”. Concernente aos Temas Geradores levantados através de tiras de papéis entregues aos alunos, fora a comida, não houve solicitação de bens, mas de espaços lúdicos e com assuntos existenciais. Houve também solicitação de brincadeiras, temáticas políticas e muitas considerações positivas sobre o espaço em que estávamos propondo. Conforme relato de A. “Nada, está ótimo assim”. A maioria das propostas provocavam espaços que possibilitassem aos alunos trabalhar seus sentimentos em relação ao próximo e a si mesmo. Fato é, que, para muitos ali presente, era a primeira vez que se expressavam de forma tão profunda e franca. Reflexões como estas, somado aos estudos que encontramos sobre o fenômeno corte nas escolas, nos faz crer que esta e tantas outras manifestações da violência autoprovocada dentro de ambiente escolares, é um apelo.

Tal proposição faz ainda mais sentido se pensarmos nas manifestações dos alunos no grupo: a maioria absoluta dos relatos continham presença de episódios traumáticos envoltos em seus contextos familiares. – Um pai – escreveu C. ao ser indagado sobre o que os facilitadores poderiam levar para os grupos, no sentido de deixá-los mais estimulantes. Nas intermitentes idas à escola, bem como nas manifestações em grupo, pode-se perceber, também, a forma violenta na qual os alunos se comunicam. Há sempre uma ofensa, uma agressão, um empurrão, que não se configuram em discordância ou embate, mas em um gesto naturalizado de se dirigir ao outro. Nesse sentido, a aposta em realizar grupos de encontro dentro de ambientes escolares, pode ser uma boa estratégia de promoção da saúde para este público: ofertar a palavra para não passar ao ato.

Vale nos servir, mais uma vez, de Rogers (2009)

[…]A causa principal da criatividade parece ser a mesma tendência que descobrimos num nível profundo como a força curativa da psicoterapia – a tendencia do homem para se realizar, para vir a ser as suas potencialidades. Com isso quero indicar a tendência diretriz, evidente em toda vida orgânica e humana, de se expandir, de se estender, de se desenvolver e amadurecer – a tendencia para exprimir e para pôr em ação todas as capacidades do organismo ou do eu. (ROGERS, 2009, P. 407.)

Para o autor, em um processo de crescimento pessoal, onde não há liberdade para expressão e manifestação subjetiva, instaura-se o sofrimento. É importante viver criativamente, e o que se pretendeu com o Ampliando a Sala de Aula fora exatamente isto; fomentar um espaço de formação cidadã através de uma circulação de discursos. A união de duas diretorias em busca de uma sala de aula que desse mais vozes aos estudantes foi o nosso maior desafio. Uma tentativa ousada de auxiliar estas pessoas na concretização de seus projetos de vida. Nessa trajetória, percebeu-se a urgência de incluir a assistência social nestas discussões e práticas, a fim de fomentar uma sala de aula que atenda às demandas educacionais contemporâneas por meio da intersetorialidade[1].

Por intersetorialidade, entendemos aqui a apropriação dos equipamentos escolares para despender ações de promoção à saúde enquanto uma estratégia inclusa no PPP – Projeto Político Pedagógico – local. É pensar, por meio das três secretarias regionais, educação, saúde e assistência social, uma pedagogia que contemple práticas de cuidado.

 Conclusão

A educação pública nos apresenta crianças e jovens que tem o seu desenvolvimento comprometido pela sua condição de vulnerabilidade social e nesse sentido, o Brasil vai precisar buscar seus próprios caminhos metodológicos para a construção de uma educação de qualidade. Entendemos como vulnerabilidade social, uma comunidade e/ou população desprovida de políticas públicas em seu território; o que implica em um desenvolvimento deficitário dessas pessoas, no que tange ao seu acesso à saúde, cultura, educação e lazer. Dessa forma, a experiência aqui relatada supõe que a transversalidade é uma direção para se pensar uma educação que conceba essa harmonia entre os conteúdos curriculares e a experiência social dos alunos, condição sine qua non para que as competências necessárias para que um aprendizado afortunado ocorra. Esperamos que esta experiência nos incite a pensar em uma sala de aula que atenda às demandas educacionais contemporâneas.

Esperamos que, juntos, Diretoria Regional de Saúde Pampulha e
Diretoria Regional de Educação Pampulha, por meio de uma construção política, possibilitemos aos nossos alunos espaços escolares voltados à construção da cidadania como mais uma estratégia para o alfabetismo.

Como resultados do trabalho, destaca-se o maior autoconhecimento dos envolvidos e o fortalecimento do clima institucional. Destaca-se, também, a importância de se pensar a estratégia Saúde da Família – eSF – com maior vigor nos espaços escolares, no intuito de garantir a presença das práticas promotoras de saúde no território através do Projeto Político Pedagógico das escolas locais. Destaca-se, ainda, a importância de tal estratégia em prol de uma escola que se ocupe em trabalhar as competências emocionais do educando, conforme preconizado pela Base Nacional Comum Curricular – BNCC -. Acreditamos que a intersetorialidade é um caminho para o alcance desta proposição, e esta evidência é, certamente, o maior resultado do presente trabalho.


[1] Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Doenças respiratórias crônicas / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica. – Brasília : Ministério da Saúde, 2010. 160 p. : il. – (Série A. Normas e Manuais Técnicos) (Cadernos de Atenção Básica, n. 25)


Referências:

AFONSO, Maria Lúcia Miranda (Org). Oficinas em dinâmica de grupo: um método de intervenção psicossocial. Belo Horizonte: Edições do Campo Social, 2006.

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília. Disponível em: < http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf&gt; Acesso em: 13 abr. 2022.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Cadernos de atenção básica. Disponível em: < https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/doencas_respiratorias_cronicas.pdf&gt;. Acesso em 13 abr. 2022.

MORENO, Montserrat. Temas transversais: um ensino voltado para o futuro: apresentação à edição brasileira. In: BUSQUETS, Maria Dolors et al. Temas transversais em Educação: bases para uma formação integral. 2. ed. São Paulo: Editora Ática, 1998. p. 19- 59.

MORIN, Edgar. Educação e complexidade: os sete saberes e outros ensaios. 5. ed. São Paulo: Cortez: 2009

ROGERS, Carl. Grupos de encontro. 7. ed. Editora Martins Fontes, São Paulo. 1994

ROGERS, Carl. Tornar-se Pessoa. 6. ed. WMF Martins Fontes, São Paulo. 2009