O meu trabalho como psicoterapeuta centrado na pessoa

Rodrigo Rezende

É muito comum as pessoas perguntarem como é exatamente o trabalho dos psicoterapeutas, ou seja, o que fazem em especial os psicoterapeutas para o bem da saúde mental de seus clientes? Neste texto, procuro responder essa pergunta do meu ponto de vista, o que inclui a influencia da Abordagem Centrada na Pessoa no meu modo de atuar como psicoterapeuta e minhas percepções e observações da prática junto aos meus clientes. Acredito que a resposta que elaborei merece ser compartilhada com os colegas e interessados para ser criticada e aperfeiçoada. O objetivo aqui não é opor e nem trazer algo de muito diferente do que já foi dito pelos estudiosos da abordagem, mas argumentar e ilustrar a questão a partir da minha perspectiva experiencial. Procurei responder como faço o trabalho e qual efeito ele tem no cliente de uma forma próxima da experiência vivencial, tanto do meu ponto de vista quanto do que presumo que seja o ponto de vista dos clientes.

Nessa perspectiva, o meu trabalho como psicoterapeuta centrado na pessoa é principalmente agir como um facilitador para que o cliente experiencie, simbolize e expresse em profundidade. Aqui, experienciar significa perceber as sensações corporais pré-simbólicas (não racionalizadas, como um frio na barriga mediante ao perigo); simbolizar significa encontrar significado e identificar sentimentos para a experienciação, e expressar significa comunicar a simbolização, ou seja, os sentimentos identificados. Experienciar, simbolizar e expressar produz efeito terapêutico nos clientes de transformação de problemas, conflitos, sofrimentos e qualquer tipo de transtorno em algo mais digerível e assimilável. Dessa forma, a psicoterapia colabora com os processos naturais de cura e desenvolvimento da pessoa. Além disso, há diminuição da necessidade e urgência de praticar ativamente atos que podem ser agressivos contra si e contra outros, como também, redução da possibilidade de, passivamente e não conscientemente, gerar ou produzir doenças psicossomáticas. Já foi dito que quem simboliza não atua!

Assim, o meu norte como psicoterapeuta é colaborar com os meus clientes para que eles experienciem vivencialmente, simbolizem significativamente e expressem comunicando-me completamente seus sentimentos. Para tanto, busco me posicionar mediante meus clientes procurando aceitá-los incondicionalmente e estimulando a realização desses processos. Entendo que devo me posicionar facilitando esses processos vivenciais e, para tanto, busco oferecer aos clientes: aceitação incondicional (os clientes são incondicionalmente merecedores de respeito e solidariedade só por serem humanos, semelhante a mim mesmo); congruência (me apresento como um ser humano diferente do cliente, mas buscando ser coerente e verdadeiro comigo mesmo e com os clientes); e empatia (apesar das diferenças pessoais entre eu e os clientes, busco igualdade suficiente para compreende-los profundamente nas suas vivências e sentimentos. Procuro me posicionar como interessado e participante das experienciações, simbolizações e expressões dos meus clientes e, quando estes têm dificuldades nesse sentido, arrisco assumir o papel de tentar experienciar, simbolizar e expressar por eles, como se eu fosse os próprios clientes, numa tentativa de clarificar seus sentimentos para eles mesmos. Faço dessa forma para ajudar meus clientes a aprofundar suas vivências e sentimentos. Entendo que muitas vezes, mesmo quando eu não acerto ao me arriscar vivenciar e sentir no lugar dos clientes, essas tentativas geram neles estímulos para eles próprios irem mais fundo e aumentar a qualidade de suas experienciações, simbolizações e expressões.

Experienciar, simbolizar e expressar não muda os fatos, não cessa sofrimentos e não resolve problemas, embora saibamos que é comum surgir boas ideias solucionadoras em seguida, mas sempre transforma os sentimentos e os sofrimentos em algo mais digerível pelo organismo. Esses três processos conjugados funcionam como um tipo de analgésico e, aquilo que doía mais passa a doer menos e, com menos dor, fica mais fácil retomar controle, assumir responsabilidades e encontrar coragem para tomar decisões e a direção da própria vida. Essa postura de assumir responsabilidades, por sua vez, contribui com o aumento da força natural interior de superação e progresso. Assim, forma-se um “ciclo virtuoso” que, ao aliviar os sofrimentos, aumenta a possibilidade de superação, o que alivia ainda mais os sofrimentos abrindo maiores possibilidades para o bem estar. Embora sentimentos sejam tão particulares e individuais, experienciá-los, simbolizá-los e expressá-los em profundidade ajuda significativamente o processo de recuperação da saúde ou mesmo cura e do desenvolvimento de qualquer pessoa.