O estudo do potencial humano na Psicologia contemporânea: A corrente Humanista e a corrente Transpessoal.

Elias Boainain Jr.
A leitura histórica que contextualiza este artigo, inicialmente proposta por Abraham Maslow, afirma que a Psicologia se desenvolveu, e contemporaneamente se estabelece, em quatro grandes Forças, isto é, grandes correntes ou movimentos congregadores de teorias, escolas, estudiosos e praticantes da ciência psicológica.De acordo com essa classificação, a Primeira Força é o Behaviorismo, ou Psicologia Comportamental, corrente iniciada por John Watson e cujo maior expoente talvez seja B. Skinner, sendo a Psicanálise, criada por Sigmund Freud, apontada como a Segunda Força. Não obstante o inegável valor e importância das contribuições dessas duas primeiras Forças para a compreensão psicológica do ser humano, elas despertaram, no meio científico psicológico, diversas oposições ao mecanicismo de suas propostas deterministas de compreensão do psiquismo e ao pouco otimismo de suas concepções relativas à natureza humana e suas potencialidades intrínsecas. Estas potencialidades, afirmam os opositores, teriam sido negligenciadas, ignoradas ou deturpadas nas propostas de Psicologia do Behaviorismo e da Psicanálise, cujas principais descobertas e teorias fundamentaram-se, respectivamente, no estudo de animais e de doentes mentais. Assim, congregando diversas escolas e investigadores, dois outros grandes movimentos, em que o estudo do potencial humano é privilegiado, tem emergido nas últimas décadas e sido apresentados e propostos como novas Forças da Psicologia: A Psicologia Humanista, ou Terceira Força, e a Psicologia Transpessoal, ou Quarta Força. O objetivo deste artigo é apresentar, de forma didática e sintética, o histórico e as características principais dessas duas correntes da Psicologia contemporânea que enfatizam o estudo e o desenvolvimento das potencialidades do psiquismo humano.

Ao contrário do Behaviorismo e da Psicanálise, entretanto, nem a Psicologia Humanista nem a Psicologia Transpessoal podem ter suas origens associadas a determinado autor ou escola, embora líderes e expoentes possam ser identificados. Ambas se constituem, na verdade, como movimentos congregadores de profissionais e abordagens de origem, por vezes, bastante diversa e independente. A articulação e institucionalização, tanto do Movimento Humanista quanto do Transpessoal,  nasce da  insatisfação e sensação de isolamento de investigadores, teóricos e praticantes não identificados com as tendências predominantes no cenário psi e traduz seu anseio de constituir um grupo de pertença, intercâmbio, atuação e fortalecimento mútuo, a partir da convergência em torno de algumas propostas, tendências, posicionamentos, interesses, pontos de vista e mesmo linguagem assumidos em comum, mas sem prejuízo das perspectivas mais particulares e das diferenças entre as escolas específicas com que se identificam.

Essa heterogeneidade típica das duas correntes, e que dá margem a caracterizações e definições por vezes bastante discrepantes entre os autores que as apresentam, acaba por vezes confundindo o estudante ou profissional de Psicologia que se propõe a entender o que é afinal a Psicologia Humanista ou a Psicologia Transpessoal.

Sem a pretensão de poder acabar com essa confusão, mas desejando lançar alguma luz sobre o assunto, a caracterização que aqui apresento não terá a preocupação de discriminar ou comparar os posicionamentos e as contribuições de cada autor ou escola que se identifica ou é identificado como humanista ou transpessoal. O enfoque adotado será o de, após uma sintética exposição dos aspectos históricos e contextuais a que o nascimento de cada um dos movimentos esteve associado, centrar a exposição nas tendências mais gerais e consensuais,

examinando-as em quatro tópicos, ou dimensões, que me parecem essenciais na caracterização de qualquer escola ou corrente de Psicologia: a Temática Privilegiada; o Modelo de Ciência; a Visão de Homem; e os Métodos e Técnicas.

No caso da Psicologia Humanista, como esta, em suas diversas abordagens,  é hoje bem mais difundida e estabelecida no meio acadêmico e profissional da Psicologia de nosso país, a exposição será mais resumida e menos fundamentada em citações e esclarecimentos. Preferi ocupar um espaço maior na apresentação da Psicologia Transpessoal, a qual, não obstante o crescente interesse que vem despertando (demonstrado, por exemplo, no aumento da tradução e edição de livros sobre o assunto), é ainda bem pouco conhecida e aceita nos meios mais oficiais da Psicologia no Brasil.

A PSICOLOGIA HUMANISTA

HISTÓRICO

O Nascimento da Psicologia Humanista

A Psicologia Humanista, conforme historia DeCarvalho (1990), surgiu, com esse título, no final da década de 50 e início os anos 60. Foi sobretudo graças ao trabalho de dois homens, Abraham Maslow e Anthony Sutich, que o Movimento Humanista pode ser articulado, organizado e institucionalmente fundado como a Terceira Força da Psicologia.

No início da década de 50, Maslow era um promissor psicólogo experimental e professor de Psicologia na Universidade de Brandeis, mas seus interesses pouco ortodoxos e pouco afinados à forte predominância do Behaviorismo no ambiente acadêmico, apenas confrontado pela influência da Psicanálise nos meios clínicos, tendiam a levá-lo ao isolamento profissional e intelectual. Era-lhe inclusive difícil arranjar veículo adequado para publicar seus artigos, que não encontravam ressonância na linha editorial e teórica adotada pela maior parte das revistas técnicas de então. Como forma de contornar o problema, em meados dos anos 50, organizou uma lista de nomes e endereços de psicólogos e grupos envolvidos em visões menos ortodoxas e mais afinados com suas próprias idéias, para com eles manter intercâmbio de artigos e discussões, na forma de uma rede de correspondência, a que chamou Rede Eupsiquiana e que viria a ser o embrião do Movimento Humanista.

Sutich, psicólogo que conhecera  Maslow no final dos anos 40 e que nos anos 50 tornara-se ativo participante da Rede e intenso colaborador na discussão das novas idéias, veio a ter fundamental papel no lançamento e institucionalização da Psicologia Humanista. De suas discussões com Maslow nasceu a percepção de que uma nova Força estava se configurando e já era a hora, ao final dos anos 50, de fundarem uma revista própria que difundisse e veiculasse a proposta. Sutich foi encarregado de encabeçar o empreendimento, dedicando-se intensamente à tarefa de articulação e organização. Após considerável deliberação sobre o nome da nova revista – foram sugeridos Ser e Tornar-se, Crescimento Psicológico, Desenvolvimento da Personalidade, Terceira Força, Psicologia do Self, Existência, e Orto-Psicologia –  foi adotado o título Revista de Psicologia Humanista, sugerido por S. Cohen, e que desde então passou a designar o Movimento, oficialmente lançado com o primeiro número da revista, em 1961.

O sucesso da revista acabou levando à organização da Associação Americana de Psicologia Humanista, fundada em 1963, consolidando-se o movimento de forma definitiva em 1964 quando, em uma conferência realizada na cidade de Old Saybrook, compareceram em aberta adesão grandes nomes inspiradores do movimento. Com sua rápida e sólida difusão a Psicologia Humanista se mostra hoje uma Força firmemente estabelecida e respeitada no panorama da Psicologia mundial, generalizadamente reconhecida nos campos teóricos, acadêmicos e de aplicação.

Principais Influências e Adesões

Ao contrário das Forças anteriores, a Psicologia Humanista não se identifica ou inicia com o pensamento de um determinado autor ou escola. Tratando-se primariamente de um movimento congregador de diversas tendências, unidas pela oposição ao Behaviorismo e à Psicanálise, assim como pela convergência em torno de algumas propostas comuns, várias afluências, adesões e influências podem ser apontadas, destacando-se as que se seguem:

Teorias Neo-Psicanalíticas

A crítica que a Psicologia Humanista faz à Psicanálise, centra-se sobretudo na visão pessimista, determinista e psicopatologizante que atribui à teoria de Freud, assim como na impessoalidade da técnica transferencial. Já algumas teorias de discípulos dissidentes de Freud são vistas com bons olhos e citadas como importantes influências em relação ao trabalho de destacados humanistas. São vistas com simpatia as teorias de Adler, Rank, Jung e Reich, assim como são bem recebidas contribuições da Psicanálise americana, representada por Horney, Sullivan, Erikson, e toda a corrente de Psicanalistas do Ego e Culturalistas em geral. Psicanalistas não ortodoxos, como Nuttin e Fromm, chegam mesmo a tornar parte ativa no Movimento.

Gestaltistas e Holistas

A Psicologia Humanista retoma em grande parte as propostas da Psicologia da Gestalt alemã, em especial a visão holista (que privilegia o todo em detrimento das partes, opondo-se ao elementarismo e ao reducionismo) do ser humano e seu envolvimento ambiental. Trazida aos Estados Unidos pelos seus criadores –  Wertheimer, Koffka e Köhler – e outros psicólogos imigrantes, fugitivos das conturbações políticas européias, a influência da Psicologia da Gestalt está presente em praticamente todos os psicólogos humanistas. Para citar apenas os principais autores envolvidos no surgimento da Psicologia Humanista e para os quais a formação gestáltica foi decisiva lembremos Goldstein, Angyal e Lewin, sendo que este último, ao lado das propostas do Psicodrama de Moreno, foi também uma das principais influências no extraordinário desenvolvimento e aplicação de técnicas de trabalho grupal, que tão caracteristicamente marcaram o movimento da Psicologia Humanista. E, ainda neste tópico da influência gestáltica, não pode ser esquecido Perls, o polêmico Fritz, que em suas originais leituras da Psicanálise, da Psicologia de Gestalt e do Existencialismo, foi, com a Gestalt-Terapia por ele criada, uma das presenças mais marcantes no extraordinário sucesso e desenvolvimento da Psicologia Humanista nas décadas de 60 e 70.

Psicologias Existenciais

As articulações para o lançamento da Psicologia Humanista coincidiram, no final da década de 50, com a maior difusão nos Estados Unidos do trabalho que havia décadas vinha sendo realizado na Europa por diferentes escolas de Psicologia e Psicoterapia inspiradas em filósofos existencialistas e fenomenólogos(1). Essa difusão ocorre não só pela tradução para o inglês de obras de psicólogos existenciais, como Boss, Binswanger e Van Den Berg, mas também pelo trabalho de divulgação realizado no meio psicológico pelos escritos de Tillich e Rollo May, tendo este último organizado, em 1959, o primeiro simpósio sobre Psicologia Existencial realizado nos Estados Unidos, para o qual foram convidados expoentes e futuros líderes do Movimento Humanista, como Maslow e Rogers. Não tardaram a serem encontrados pontos em comum nas respectivas propostas e, sobretudo pela participação ativa de May e outros psicólogos existenciais que aderiram ao movimento, como Bugental e Bühler, a Psicologia Humanista foi amplamente enriquecida com a perspectiva fenomenológica e existencial, a ponto de por vezes ser denominada  Psicologia Humanista-Existencial (Greening, 1975). Não cabe aqui uma discussão mais aprofundada do relacionamento nem sempre fácil e pacificamente aceito entre a perspectiva humanista americana – em muitos sentidos muito mais essencialista, ligada antes a Rousseau que a Heidegger e Sartre, menos filosoficamente sofisticada, mais otimista e vinculada a interpretações biológicas da natureza humana – e a perspectiva existencial européia. Entre os filósofos existencialistas cujas idéias foram mais abertamente abraçadas pelos humanistas americanos, destacam-se Kierkegaard e Buber, sem contar com a influência de Nietzche que, sobretudo por via indireta (as idéias de Adler), é notada em algumas propostas da Terceira Força. De uma maneira geral, o Movimento Humanista acabou por absorver a maioria dos psicólogos existenciais americanos e, do outro lado, a proposta humanista recebeu a adesão de pelo menos um teórico europeu de destaque, Viktor Frankl, criador da Logoterapia, que posteriormente integraria também o Movimento Transpessoal. Ronald Laing, o anti-psiquiatra inglês que sofreu forte influência das idéias de Sartre, pode também ser apontado como interlocutor e simpatizante da Psicologia Humanista e, à semelhança de Frankl, assíduo freqüentador do meio transpessoal.

Escolas Americanas de Psicologia da Personalidade

Outra importante influência na constelação do Movimento Humanista, diz respeito à afluência de importantes escolas de Psicologia da Personalidade desenvolvidas nos Estados Unidos. Afora a sempre lembrada homenagem póstuma aos pragmatistas John Dewey e Willian James, destacados teóricos independentes como G. Allport, G. Murphy, Murray, Kelly, Ellis, Maslow e Rogers, assim como toda a escola de Psicologia do Self e a corrente de fenomenólogos americanos, associaram-se ao movimento, em diferentes graus de apoio e envolvimento.

Outras Afluências como movimento aberto e inclusivo de novas tendências, idéias e experimentações pouco ortodoxas, a Psicologia Humanista não tardou a integrar em suas fileiras de simpatizantes e proponentes toda sorte de marginais contestadores do sistema. A espetacular revolução que o movimento propiciou no campo das psicoterapias, entendidas a partir de então na perspectiva ampliada de  técnicas de crescimento pessoal ou de desenvolvimento do potencial humano, estimulou  o estudo, experimentação e aplicação – infelizmente de modo nem sempre tão sério e criterioso como seria de se desejar – de novas formas de  ajuda psicológica. Entre as tendências que se aproximaram da Psicologia Humanista, destacam-se as novas psicoterapias que vinham se desenvolvendo a partir do trabalho mais ou menos independente de seus criadores, como a Terapia Primal de Arthur Janov, a Análise Transacional de Eric Berne, e a Psicossíntese de Roberto Assagioli (que posteriormente abraçaria o Movimento Transpessoal); as escolas e técnicas de trabalho não verbal e corporal, com suas propostas de relaxamento, sensibilização e desbloqueio psíquico e energético; as variadas formas de trabalho intensivo com grupos que se associaram no que ficou conhecido como Movimento dos Grupos de Encontro; e enfim toda sorte de touchy-feelly terapeutas envolvidos na experimentação alternativa de técnicas de desenvolvimento pessoal ou simplesmente navegando em uma superficial e consumista adesão à nova onda. Influências matizadas de aspectos que em breve dariam origem ao Movimento Transpessoal, especialmente relativas ao estudo e aplicação de técnicas de meditação e experimentação psíquica com drogas psicodélicas, também podem aqui ser incluídas, embora alguns humanistas mais ortodoxos as rejeitem como parte das superficiais e pouco sérias contribuições e adesões que o movimento acabou por atrair, em grande parte devido ao clima cultural mais amplo a que o surgimento da Psicologia Humanista esteve associado e que examinaremos a seguir.

A Questão da Contracultura

A institucionalização e o rápido desenvolvimento e aceitação da Psicologia Humanista coincidiu, no contexto cultural da década de 60, com os anos de acentuado questionamento e mudança nas sociedades ocidentais. Anos de revoltas políticas e de costumes, sobretudo entre a juventude, e em que mais do que nunca a contestação ao Sistema e aos valores estabelecidos esteve na ordem do dia. Anos marcados pelo que, na expressão cunhada por Theodore Roszak (s. d.), foi chamado de Contracultura: revoltas estudantis, movimento hippie, mobilização pacifista contra a guerra do Vietnã, ativismo político, organização de minorias raciais e feministas, desafio à autoridade, revolução underground nas artes, oposição ao materialismo consumista, valorização do corpo, do sentimento, do amor livre, da experimentação psíquica através das drogas psicodélicas, da ecologia, da auto-expressão espontânea, e das experiências meditativas e espirituais. Essas tendências todas convergiam na rejeição aos modelos tradicionais de família, de trabalho, de escola, de relações interpessoais, de igreja, de governo, de instituições em geral, e da própria cultura ocidental.

Muito do extraordinário sucesso da  Terceira Força da Psicologia se deve ao Espírito do Tempo, o Zeitgeist, desse momento histórico, ao qual de várias maneiras  suas propostas eram ressonantes e coincidentes, ao ponto de, em diversos sentidos, ter sido o Movimento da Psicologia Humanista abarcado como uma das facetas da Contracultura. Apesar dos excessos, equívocos, ingenuidades e superficialidades cometidas no calor da revolução cultural, não compartilho a opinião daqueles (como Smith, 1990) que lamentam como infeliz distorção a associação da imagem da Psicologia Humanista aos movimentos contestatórios dos anos 60. Na Verdade, mais do que qualquer outra corrente da moderna Psicologia, a Psicologia Humanista é marcada por um compromisso de engajamento em favor da mudança social e cultural, em direção a uma sociedade de valores mais humanos, menos controladora, mais atenta às necessidades intrínsecas de auto-realização, mais criativa e lúdica, envolvendo relações pessoais mais abertas, autênticas, auto-expressivas e prazerosas, em que a exploração alternativa das dimensões humanas da intimidade corporal e emocional fosse sancionada ao invés de reprimida; enfim, onde a pessoa, em sua liberdade e auto-determinação no desenvolvimento de suas possibilidades, fosse o valor supremo, contra todos os dogmas, valores  e autoridades externamente constituídos. Ora, em grande parte, isso me parece coincidir com as propostas e os valores abraçados pelos movimentos contraculturais de então.

CARACTERÍSTICAS

Temática Privilegiada

Além da oposição ao Behaviorismo e à Psicanálise, e da absorção de escolas não identificadas com essas correntes, o Movimento Humanista é caracterizado pela congregação  de estudiosos em torno de alguns tópicos e interesses  que podem ser apontados como temáticas típicas e preferenciais da Psicologia Humanista. Sutich (1991), relembrando o início do Movimento e o lançamento da Revista de Psicologia Humanista, informa como uma definição de Terceira Força  formulada por Maslow em 1957, foi utilizada  na introdução da primeira edição, para assim descrever a proposta:

A Revista de Psicologia Humanística foi fundada por um grupo de psicólogos e profissionais de outras áreas, de ambos os sexos, interessados naquelas capacidades e potencialidades humanas que não encontram uma consideração sistemática nem na teoria positivista ou behaviorista, nem na teoria psicanalítica clássica, tais como criatividade, amor, self, crescimento, organismo, necessidades básicas de satisfação, auto-realização, valores superiores, transcendência do ego, objetividade, autonomia, identidade, responsabilidade, saúde psicológica, etc.   (p. 24).

Nessa significativa listagem elaborada por Maslow como resumo dos interesses editoriais do veículo oficial do movimento, pode-se perceber o delineamento das principais tendências e ênfases temáticas que, relacionadas entre si, caracterizam-se como típicas da Psicologia Humanista.

Em primeiro lugar, a Psicologia Humanista destaca-se como a corrente que, afastando-se do tradicional enfoque clínico de privilegiar o estudo das psicopatologias, passa a enfatizar a saúde, o bem estar, e o potencial humano de crescimento e auto-realização. Já em seu livro  Introdução à  Psicologia do Ser, de 1957, Maslow (s. d.) aponta para a necessidade do desenvolvimento de uma Psicologia da Saúde, criticando as teorias, como a Psicanálise, que generalizam suas conclusões sobre o ser humano a partir de dados obtidos quase que exclusivamente no estudo de indivíduos mentalmente perturbados, resultando conseqüentemente em um retrato pessimista e desabonador da natureza humana. Maslow, ao contrário, se propõe o estudo das mais saudáveis e admiráveis pessoas, por ele denominadas personalidades auto-atualizadoras, dando início à tradição humanista de abordar a Psicologia a partir do prisma da saúde e do crescimento psicológico. Tão forte é essa tendência que forneceu o termo Eupsicologia, cunhado nas primeiras tentativas de articulação e caracterização do movimento. Também, em sua proposta de enfatizar o desenvolvimento das melhores capacidades e  potencialidades do ser humano, a Psicologia Humanista é muitas vezes identificada como o Movimento do Potencial Humano. Assim, ao invés de empenhar-se em exaustivas  descrições e teorizações sobre os mecanismos das enfermidades psíquicas, reservando à saúde a definição negativa de ausência de doença, é mais típico da Psicologia Humanista buscar definir as características do pleno e saudável exercício da condição humana, em distanciamento do qual as patologias podem então serem entendidas.

Em segundo lugar, outra importante orientação temática geral da Psicologia Humanista, diz respeito ao privilegiar das capacidades e potencialidades características e exclusivas da espécie humana. Criticam os humanistas, sobretudo ao Behaviorismo, a tendência a generalizar conclusões obtidas a partir de experimentos realizados quase que exclusivamente em pesquisa animal; assim como a forte tendência da psicologia experimental em, mesmo quando dedicada a trabalhos com pessoas, centrar-se em aspectos fisiológicos, ou muito parcializados, perdendo de vista a própria dimensão psicológica característica do ser humano, que deveria em princípio ser o enfoque prioritário de uma ciência dedicada ao estudo da mente e da psiquê. A volta ao humano como objeto de estudo é uma das bandeiras do Movimento, importante a ponto de fornecer-lhe o título designativo. Qualidades e capacidades humanas por excelência, tais como  valores, criatividade, sentimentos, identidade, vontade, coragem, liberdade, responsabilidade, consciência, auto realização, etc., fornecem temas de estudo típicos das abordagens humanistas. Essas e outras temáticas, igualmente características (organismo, self, significados, intencionalidade, necessidades básicas, experiência subjetiva, encontro, etc.), estão também associadas à visão de homem, à proposta de Ciência, e aos métodos e técnicas desenvolvidos e assumidos pela Psicologia Humanista, que serão examinados nos próximos itens, e representam as diversas influências recebidas pelo Movimento, sucintamente referidas nos itens anteriores.

Ao leitor mais atento não terá por certo escapado a inclusão, na listagem de Sutich, do tema transcendência do ego. Tal assunto, embora em algumas abordagens possa ser entendido como a mera superação da identificação com uma defensiva e socialmente imposta imagem de si, em seu sentido mais amplo, caracteriza antes uma temática transpessoal, cuja inclusão aqui serve para ilustrar a  vinculação dessa tendência ao Movimento Humanista, no qual era inicialmente vista como uma facção ou topifição de interesses, assunto que será melhor esclarecido quando tratarmos do surgimento da Psicologia Transpessoal.

Visão de Homem

De forma bem mais  declarada que as Forças anteriores, a Psicologia Humanista, enquanto movimento organizado, reconhece, assume e propõe a inevitabilidade da adoção de um Modelo de Homem, ou seja, uma concepção filosófica da natureza humana, como  ponto de partida e princípio norteador de qualquer projeto de construção da Psicologia. Neste tópico, talvez mais que em qualquer outro, destila a Psicologia Humanista suas maiores críticas e discordâncias às escolas a que se opõe, contestando veementemente os modelos de homem que identifica nas formulações  psicanalíticas  e behavioristas.

Opõem-se os humanistas à concepção psicanalítica do homem como um animal lúbrico e feroz, movido por necessidades instintivas de prazer e agressão, ao qual só a custa de muitas restrições e sublimações da natureza animalesca básica se pode, na melhor das hipóteses, trazer algum verniz de racional sociabilidade, mas não sem um inevitável ônus de frustração, infelicidade e Mal-Estar da Civilização. Recusam-se também a conceber o ser humano como uma espécie de máquina, robô ou marionete, cuja natureza  passiva e amorfa, assim propõe o Behaviorismo, é absolutamente moldada, manipulada e controlada pelas contingências de estimulação e condicionamento  ambiental, a quem na melhor das hipóteses se poderá oferecer a escolha (ela própria condicionada) entre um condicionamento fortuito e um planejado. Negando-se a aceitar que o homem seja assim reduzido por tão pessimistas e desalentadoras visões, a Psicologia Humanista se afirma em um compromisso com uma visão otimista e engrandecedora, na qual as melhores qualidades e potenciais positivos manifestados pelos  homens sejam valorizados como a própria essência da natureza humana.

Grosso modo, a visão psicanalítica costuma ser comparada, pelos humanistas americanos, à pessimista opinião de Hobbes (o homem é o lobo do homem), e a visão behaviorista à concepção de Locke, que vê o ser humano como uma tabula rasa; ao passo que seu próprio modelo é considerado como uma reedição da generosa visão de Rousseau: O homem é naturalmente bom, a sociedade é que o corrompe.

Vejamos, em algumas tendências e consensos das abordagens humanistas, um sucinto esboço da visão de homem que elas propõem:

Enxergando o homem como um todo complexo e organicamente integrado, cujas qualidades únicas vêm de sua configuração total, rejeitam os humanistas as concepções elementaristas e fragmentadoras da psiquê. Retomando para o Movimento a proposta holista que Adler foi buscar em Smuts, e que de outra parte caracterizou a Psicologia da Gestalt, vêem no homem uma natureza tal que a totalidade da pessoa humana é sempre maior que a soma de  suas partes tomadas isoladamente. Em especial nas teorias desenvolvidas nos Estados Unidos – o ramo americano e mais caracteristicamente humanista do Movimento, e para o qual as idéias do neurologista e teórico gestaltista Goldstein foram especialmente influentes – a compreensão organísmica do ser incluí suas raízes biológicas. Assim, concebem o homem  como marcado pela necessidade, que vêem como intrínseca a  todo organismo vivo, de atualizar seu potencial e se tornar a totalidade mais complexa, organizada e autônoma que for capaz. Esta hipótese da necessidade de auto-realização fornece, em diversas versões, a teoria básica de motivação da maioria das psicologias humanistas. Mesmo que as escolas existenciais, dada sua ênfase na liberdade e sua compreensão do ser humano como criatura cuja natureza consiste em criar sua própria natureza (Sartre), rejeitem a consideração de tendências biológicas determinantes, há quem remonte à vontade de potência de Nietzsche a origem da formulação humanista da existência de uma tendência intrínseca de busca da auto-realização. Igualmente associada à concepção holista, está a compreensão que os humanistas em geral tem do homem como implicado e indissociavelmente configurado – mas não determinado – em seu relacionamento com o ambiente, seja este físico, fenomenológico-experiencial, interpessoal, ou sócio-histórico-cultural.

O ser humano, na visão humanista-existencial, é proposto como um ser livre e intencional, recebendo esta  noção especial destaque nas psicologias existenciais, as quais por vezes rejeitam a concepção mais essencialista e rousseauniana dos americanos, que crêem ser a natureza humana positivamente orientada, devendo as relações psicossociais deletérias ser responsabilizadas por qualquer desvio dessa bondade original. Para os existencialistas, sendo o homem livre e auto-orientado pelos propósitos e sentidos que dá à própria existência, não pode eximir-se de se responsabilizar plenamente pelo que é, apesar da inevitável angústia que esse assumir-se evoca, pois qualquer outra atitude seria auto-engano, má fé, inautenticidade no existir. De qualquer forma, de uma maneira geral, as teorias humanistas propõem que o comportamento do ser humano não pode ser adequadamente entendido a partir de referências exclusivas a influências determinantes externas à sua consciência e aos significados atuais que imprime ao mundo, sejam essas influências provenientes do ambiente, do passado,  ou do inconsciente. Associadas portanto à aceitação da liberdade, da responsabilidade e da intencionalidade como características intrínsecas à condição humana, resultam a ênfase nas interpretações teleológicas (que enfocam a finalidade ao invés da causa passada) do comportamento; o privilegiar da dimensão consciente e do vivenciar da experiência presente; assim como o enfoque fenomenológico (que se atem à experiência subjetiva e consciente) e compreensivo (que contrapõe a compreensão por empatia à explicação por referenciais exteriores); os quais, com maior ou menor destaque, são defendidos pelos humanistas.

Enfim, vendo o homem como um ser em busca e construção de si mesmo, cuja natureza continuamente se desvela e exprime no realizar de suas possibilidades e na atualização de seu potencial, compreendem os humanistas que só se é pessoa, só se é realmente humano, no autêntico, livre e integrado ato de se desenvolver. Daí o generalizado consenso, que alguns entendem como a característica mais marcante da  visão de homem que a Psicologia Humanista apresenta, em rejeitar concepções estáticas da natureza humana, considerada antes como algo fluido: uma tendência para crescer, um movimento de sair de si, um projetar-se, um devir, um incessante tornar-se, um contínuo processo  de vir a ser.

Modelo de Ciência

O desenvolvimento da Psicologia Humanista é caracteristicamente marcado por uma reflexão e tomada de posições em questões filosóficas e epistemológicas sobre a natureza da Psicologia enquanto Ciência. É, sob alguns novos aspectos e nuances, retomada a discussão que envolveu o nascimento e as primeiras décadas da Psicologia Científica contemporânea, em torno da questão do modelo, dos métodos e do objeto dessa nova ciência. A controvérsia principal referia-se à adequação do Modelo de Ciência, até então bem sucedido nas modernas ciências naturais, estender-se às nascentes ciências humanas, as quais, justificadas pela singularidades de seu objeto de estudo, congregavam arrebatados defensores do desenvolvimento de um modelo próprio e diferenciado. Embora na Europa o debate tenha prosseguido e frutificado, principalmente no desenvolvimento de escolas de psicopatologia e psicoterapia inspiradas na Fenomenologia e no Existencialismo, no panorama americano a discussão parecia ter estagnado, com a aparente vitória dos modelos naturalistas, fosse o modelo positivista de determinismo ambiental adotado pelo Behaviorismo, com sua ênfase na experimentação animal e na observação objetiva; fosse o modelo médico, mecanicista em sua ênfase no determinismo psíquico, de inspiração darwiniana, e igualmente naturalista,  da Psicanálise. Os humanistas, reeditando em novas versões propostas da Psicologia Compreensiva de Dilthey, da perspectiva holista da Psicologia da Gestalt, da primeira Fenomenologia de Husserl, e dos questionamentos existencialistas sobre a a singularidade e irracionalidade da existência concreta, tendem a acordar que a Psicologia  deve se afirmar  em um modelo de ciência do homem, respeitando e se adaptando às especificidades de seu objeto de estudo. Embora a este respeito não se possa encontrar unanimidades indiscutíveis entre as diversas propostas que se articulam no movimento humanista, algumas tendências parecem se destacar, sobretudo em decorrência do Modelo de Homem que, como vimos, esse movimento defende.

De uma maneira geral, a Psicologia Humanista não se opõe aos parâmetros de racionalidade e objetividade empírica, quando utilizados na busca de explicação, controle e previsão dos fenômenos do mundo das coisas. Entretanto, quando se trata do homem, que os humanistas entendem como tão distinto do restante da criação, opõe-se, em maior ou menor grau, a diversos princípios e procedimentos consagrados em modelos de ciência natural e nas propostas de Psicologia das Forças a que se opõe. Há considerável consenso na crítica da aplicação, ao estudo do homem, de abordagens reducionistas, deterministas, elementaristas e objetivantes; ao passo que o racionalismo empírico-indutivo e hipotético-dedutivo é, com adaptações, menos rechaçado. Vejamos brevemente estas questões.

Opondo-se ao reducionismo, que vêem como associado aos modelos de homem do Behaviorismo e da Psicanálise, recusam-se os humanistas a entender o ser humano como um mero jogo de forças instintivas e culturais, ou intermináveis cadeias de estímulo-resposta, sujeito aos mesmos processos comportamentais que os animais de laboratório. Reconhecem os humanistas na pessoa humana uma complexidade tal que implica numa mudança qualitativa, e não apenas quantitativa, em relação às espécies inferiores, de tal ordem que o princípio metodológico de se compreender pelo mais simples o mais complexo deva, no caso do homem, ser invertido, pois até os processos psíquicos mais simples e primitivos adquirem novos sentidos na configuração total da personalidade humana.  Ao determinismo e mecanicismo será desnecessário nos estendermos, pois para abordagens que enfatizam a liberdade e a intencionalidade como condição humana, é evidente que o determinismo não vai ser de muito auxílio ou relevância.

A questão da objetividade científica, em nome da qual o Behaviorismo mais radical tentou esterilizar de toda vida psíquica a ciência da Psicologia, é talvez a posição que recebe maiores ataques, pois é justamente a dimensão subjetiva dos sentimentos, das emoções, dos valores, das inter-relações, dos significados, da vontade, dos anseios, da criatividade, da experiência e vida consciente, o objeto de estudos que prioritariamente a Psicologia Humanista quer abordar. Como se pode então, em nome da Ciência, fechar os olhos ao que de mais significativo e característico há para se investigar no objeto que se tem para estudo?

No que tange a levar a maiores extremos ainda o questionamento da natureza da investigação científica da psiquê humana, mesmo dentro do próprio Movimento Humanista as posições tendem a divergir. A maioria das escolas humanistas americanas se inclina a professar fé na Ciência, e seus investigadores, muitos com sólida formação empírica e experimental, são bastante criativos em renovar  e adaptar formas de pesquisa, inclusive experimentos laboratoriais,  às dimensões do ser que desejam estudar, enquanto a tradição fenomenológica européia tem possibilitado  a enorme ampliação de vias  no desenvolvimento de procedimentos para Psicologia, e fornecido talvez os principais subsídios para a discussão  da natureza desta, enquanto ciência do homem.  É entretanto em algumas propostas existencialistas que talvez se encontrem as posições mais radicais do questionamento. Tomadas até as últimas conseqüências, certas concepções básicas da visão existencial de homem e de universo, como as que propõe o caráter singular e único de cada existência, a imprevisibilidade das possibilidades e dos projetos decorrentes da liberdade e escolha autênticas, assim como a irracionalidade de um universo que, afora os mutantes sentidos que cada homem a cada momento lhe imprime,  é de uma absurda e absoluta gratuidade,  parecem tornar irrelevante qualquer noção de previsibilidade, constância, replicabilidade, generalização, racionalidade e mesmo comunicação de resultados, no estudo do humano. Sem se aceitar uma possibilidade mínima dessas condições, é de fato difícil acreditar que seja possível chegar a algum tipo de verdade científica, o que leva alguns psicólogos existenciais ao questionamento cético da utilidade de investigações empíricas, formulações teóricas, ou mesmo da Psicologia enquanto Ciência. Deste ponto de vista mais extremado, algumas abordagens mantém-se muito mais próximas da Antropologia Filosófica que da Psicologia Científica, à qual parecem se manter ligadas apenas  pelas preocupações de natureza clínica de suas propostas de psicoterapia.

Enfim, não pode deixar de ser dito, os questionamentos e respostas que a Psicologia Humanista levanta e esboça sobre a natureza da Psicologia enquanto Ciência e sua possibilidade de contribuir para a felicidade, saúde e auto-realização humana, encontram-se no cerne de todo um processo mais amplo que marca a crise da moderna Civilização Ocidental. Se a Ciência colaborou para esvaziar e isolar o homem, reduzindo-o à sua mera dimensão material e aos frios mecanismos lógico-racionais a serviço de considerações mesquinhas e doentias, a justa revolta cultural contra esse estado de coisas que nos tem retirado o sentido, a maravilha e a profundidade da experiência de ser humano entre humanos, mobilizou também os psicólogos. Assim, a  Psicologia Humanista se compromete, em seu projeto de Ciência, a estar sempre voltada a favorecer o movimento da aprisionada alma humana, em sua busca de um mundo que se possa chamar humano, e em que, entre os da nossa espécie, seja realmente um prazer viver.

Métodos e Técnicas

Mantendo-se fiel às suas opções temáticas, e tendo sempre em vista as dimensões do ser que seu enfoque privilegia, a Psicologia Humanista desenvolve, adapta e renova variadas técnicas e metodologias de abordagem da pessoa, com finalidades de estudo ou intervenção. Os questionamentos e posições assumidas sobre a natureza da Ciência Psicológica e seu objeto próprio de estudo, fazem do projeto humanista de construção da Psicologia uma fonte de inspiração e parâmetros no desenvolvimento de  abordagens adequadas, sendo sobretudo o compromisso com sua visão de homem que orienta a criação e desenvolvimento de novas formas de estabelecer a saúde psíquica e promover o desenvolvimento dos melhores potenciais humanos.

No campo da pesquisa, a Psicologia Humanista é marcada não só pela eleição de temas e faixas da experiência humana até então negligenciadas como objeto de investigação, mas também pelo desenvolvimento e utilização de inovações metodológicas. O instrumental de pesquisa e investigação desenvolvido e utilizado sob a égide da Terceira Força é bastante rico e diversificado. Para um breve apanhado das contribuições mais significativas e características, podem ser brevemente lembradas as variações dos métodos inspirados na Fenomenologia, aí incluídas as chamadas pesquisas qualitativas; a crescente consideração da influência da pessoa do investigador nos experimentos, que em muitos estudos é complementada com a inscrição dos sujeitos da pesquisa como co-investigadores; a larga realização de estudos idiográficos (interessados nas singularidades, ao invés das características generalizáveis do sujeito da investigação);  e o eclético e criativo uso com que investigadores humanistas renovam abordagens mais tradicionais de pesquisa, desde os experimentos laboratoriais até o consagrado recurso do estudo de caso.

É entretanto no campo das psicoterapias e técnicas de crescimento pessoal, mais do que em qualquer outro, que a contribuição da Psicologia Humanista é especialmente exuberante e espetacular, resultando em uma verdadeira revolução nos conceitos e formas de ajuda psicológica. O espaço aqui seria pequeno, caso eu desejasse fazer a mínima justiça da citação nominal das novas escolas e propostas que foram desenvolvidas na vanguarda ou na esteira do Movimento Humanista. Optei então por me restringir apenas à discriminação comentada de algumas das principais tendências que se associam ao Movimento.

Embora a diversidade das teorias e técnicas psicoterápicas abrangidas pela Psicologia Humanista seja quase inumerável, o reconhecimento do potencial positivo e saudável da natureza humana tende a congregá-las  em um objetivo de trabalho comum, distinto do apresentado pelas Forças anteriores. Para a concepção psicanalítica de ser humano, a psicoterapia  visa obter um equilíbrio  entre a voracidade irracional das forças do Id, as restrições culturais internalizadas no Superego, e as condições objetivas da realidade, mediante as articulações  parcialmente conscientes do Ego e seus mecanismos de defesa, resultando, na melhor das hipóteses, na transformação, como afirmou certa vez Freud, de uma infelicidade neurótica em uma infelicidade normal. Para o Behaviorismo, o conceito determinista e valorativamente neutro que faz da natureza humana, implica que a terapia é bem sucedida ao propiciar o descondicionamento dos comportamentos indesejados e a aprendizagem do repertório que propicie melhor adaptação e atenda ao desejado, sendo que as questões desejado por quem? ou adaptado a que? não encontram no Behaviorismo resposta, que deve ser buscada na ideologia da moda ou no senhor de escravos que estiver de plantão. Já para a Psicologia Humanista, o objetivo de qualquer tratamento pode ser formulado numa frase quase redundante: levar a pessoa a ser ela mesma. Propiciar ao cliente, ou estudante, a conquista de uma existência autêntica, auto-consciente, transparente, espontânea, verdadeira, congruente e natural, sem máscaras, jogos, couraças ou divisões (splits) internas: eis o que pretendem os humanistas.

A ênfase na saúde ao invés de na doença, assim como a proposta de desenvolvimento do potencial humano, tem levado as terapias humanistas a entender suas técnicas de ajuda muito mais como formas de estimular o desenvolvimento e a aprendizagem do que como tratamento de enfermidades, disfunções ou anomalias psíquicas. A troca do modelo médico pelo de auto-realização tem levado muitas abordagens a se apresentarem – não obstante o tradicional designativo psicoterapia mantenha sua força – como sendo métodos e técnicas de desenvolvimento ou crescimento pessoal. De qualquer forma é bastante generalizada a concepção de que toda psicoterapia bem sucedida é um processo de aprendizagem profunda e ampla, assim como toda aprendizagem verdadeiramente significativa é profundamente liberadora e curativa, sendo diversos dos métodos humanistas utilizados quase que indiferenciadamente no consultório e na sala de aula.

Uma das conseqüências da visão holista, e da concepção do homem como um todo bio-psíquico-social, é o destacado desenvolvimento das chamadas técnicas e abordagens corporais, em que massagem, toque, sensações, dança e movimento, catarses expressivas de cólera, choro, riso, vômito, grito e orgasmo instrumentalizam o crescimento psíquico e a maior vivência de si. Ainda neste tópico do enfoque pluridimensional, podem ser incluídas as técnicas não verbais, o uso do poder da expressão  artística, e até mesmo práticas meditativas e espirituais, cujo potencial curativo viria a ser posteriormente assumido como um dos principais recursos da terapias transpessoais.

Noções existencialistas do homem como um ser de natureza dialogal, que só se mostra – e verdadeiramente é – no encontro pessoal, tem favorecido as terapias relacionais, em que o terapeuta abdica das posturas e defesas profissionais, para entrar em relação como pessoa real, pois é no encontro de pessoa para pessoa, na relação Eu-Tu, que, acreditam os humanistas, a mudança se dá.

A aceitação da tendência inata e intrínseca para o crescimento e auto-realização favorece a compreensão do terapeuta como sendo antes um facilitador,  do que alguém que atua sobre o outro. A ênfase no fluir constante, na liberdade e na singularidade de cada ser, tende a abolir os planejamentos, os objetivos e estratégias, e a desenvolver uma atitude abertura ingênua e incondicional ao que vem do outro em seu processo de desenvolvimento e auto-criação.

O extraordinário desenvolvimento de terapias e técnicas de trabalho com grupos, especialmente na forma de vivência intensiva, é uma das tendências que marca a Psicologia Humanista. Além das ricas e inovadoras contribuições teóricas e técnicas a essa modalidade de atuação, até então negligenciada, o chamado Movimento dos Grupos de Encontro representou, ao menos nos anos 60 e 70, a faceta de maior impacto da Terceira Força, traduzindo em ações efetivas o compromisso transformação sócio-cultural que a Psicologia Humanista se impõe.

Enfim, é no teste empírico de suas idéias, muitas vezes taxadas de ingênuas ou utópicas, e no sucesso e aceitação de suas práticas, que a Psicologia Humanista tem se consolidado como uma psicologia afinada ao Zeitgeist de nossa época, em que apesar de toda crise, amargura, cinismo, solidão e desesperança, o anseio mudo e oculto por uma vida mais autêntica e humanizada  torna-se eloqüente e fulgura ao encontrar quem nele acredite e se disponha a ajudar.

A PSICOLOGIA TRANSPESSOAL

HISTÓRICO

Antecedentes

O reconhecimento da existência e importância, assim como o interesse em seu desenvolvimento, das potencialidades humanas relacionadas à espiritualidade, auto-transcendência e ampliação da consciência – temática que contemporaneamente caracteriza o objeto de estudos privilegiado da Psicologia Transpessoal – é imemorial nas culturas e sociedades humanas. Embora esse interesse, assim como a visão de homem e universo a ele associada, sejam com justiça habitualmente relacionados ao campo da Religião ou da Filosofia, é igualmente justo e apropriado, sob uma ótica mais atual, considerar grande parte da produção cultural desenvolvida nessa área como pertencente ao campo do que hoje chamamos Psicologia. De fato, abstraída uma leitura mais ingênua dos aspectos mitológicos, doutrinários e ritualísticos específicos, a maioria das religiões e tradições espirituais acaba propondo um modelo teórico-operativo da psiquê humana – ou seja, uma teoria da personalidade – e tecnologias de mudança da personalidade em direção ao considerado mais saudável pelo modelo adotado – ou seja, um tipo de psicoterapia.

Este ponto de vista de aceitar as tradições espirituais como psicologias, e mais ainda psicologias transpessoais, é ponto pacífico dentro do Movimento Transpessoal e, mesmo fora deste, encontra hoje ampla aceitação, em grande parte graças ao trabalho de Jung , que em suas pesquisas sobre a Alquimia e as religiões orientais e ocidentais, revolucionou a concepção cientificista com que tais tradições eram encaradas. Assim vemos hoje populares manuais acadêmicos de teorias da personalidade, largamente utilizados fora do círculo transpessoal (como o de Fadiman e Frager, 1979) e mesmo de autores não identificados com a perspectiva transpessoal (como Hall e Lindsey, 1984) dedicarem capítulos às chamadas Teorias Orientais.

Ainda examinando o passado histórico da Psicologia, vamos encontrar nas psicologias pré-científicas desenvolvidas sob a égide da Filosofia, toda gama de concepções sobre a natureza humana e suas relações com o universo circundante, em que são privilegiadas perspectivas metafísicas e enfatizado o potencial de espiritualidade e transcendência da consciência. Tais concepções, permanecendo atuais e dando margem a estudos adequados ao arcabouço teórico e conceptual da Ciência atual, podem ser considerados como patrimônio pela moderna Psicologia científica e, nos aspectos relacionados à espiritualidade, como contribuições à Psicologia Transpessoal.

Mesmo na história recente de nossa ainda jovem ciência da Psicologia, são encontrados significativos precursores do atual Movimento Transpessoal, sendo três os nomes mais amplamente reconhecidos:

Em primeiro lugar, é lembrado o psiquiatra canadense Richard Maurice Bucke, que em fins do século passado realizou estudos sobre vivências de ampliação e transcendência da consciência, as experiências místicas, de farto relato na literatura religiosa e, mais recentemente, também na psiquiátrica. Foi Bucke quem adotou o termo consciência cósmica, como designativo mais ou menos genérico para a vivência subjetiva de abarcar o cosmos como conteúdo da consciência. Título de seu livro Consciência Cósmica, hoje um clássico da Psicologia Transpessoal, o termo ainda é largamente utilizado, em grande parte como uma homenagem a esse grande pioneiro no estudo científico dos estados superiores da consciência humana.

Em segundo lugar, já na virada do século, fulgura William James, que em seus estudos sobre As Variedades da Experiência Religiosa (título de seu livro de 1902) e, sobretudo, em suas teorias sobre a natureza da consciência, seu fluxo e estados, formulou arrojadas concepções transpessoais que hoje são recuperadas e revalorizadas pelos psicólogos da Quarta Força. Não são poucos os que vêem na Psicologia Transpessoal, a qual retoma a consciência como objeto central da Psicologia (ênfase que desde James havia sido abandonada), uma continuidade de seu trabalho. Esse grande luminar, cuja obra nas últimas décadas vem sendo redescoberta e retirada das empoeiradas páginas da História da Psicologia, é aclamado como precursor não só da Psicologia Transpessoal, mas também do movimento fenomenológico, humanista e existencial da Terceira Força.

E por fim vamos encontrar o extraordinário Carl Gustav Jung, outro gênio cuja filiação póstuma em suas fileiras, como membro honorário e precursor, é disputada tanto pelo Movimento Humanista como pelo Transpessoal. Psicólogo adiante de seu tempo, em muitas de suas revolucionárias concepções antecipou em décadas diversas tendências assumidas hoje pela Psicologia Transpessoal, sendo impossível, neste curto espaço, traçar  ainda que um resumo de suas contribuições ao estudo das dimensões transcendentes da consciência – ou do inconsciente, como ele preferiria dizer. Apenas para citar, noções como arquétipo, inconsciente coletivo, psiquê objetiva, Self, sincronicidade, psicóide, entre outras, assim como seus já referidos estudos sobre Religião e Alquimia – e mais, Parapsicologia, Astrologia e métodos divinatórios – encontram-se, e por certo se manterão por muito tempo, na ordem do dia para os psicólogos transpessoais deste e do futuro século.

A Emergência da Psicologia Transpessoal

Não obstante o interesse milenar do ser humano pelas dimensões superiores e espirituais de sua psiquê e experiência, e do significativo trabalho desenvolvido no campo da Psicologia por pioneiros como os que foram referidos, é somente de meados para o final da década de 60 que uma série de fatores contribui para o aumento de investigações, teorizações e práticas psicológicas relacionadas ao tema, criando condições para a emergência e institucionalização da Psicologia Transpessoal enquanto movimento organizado que se propõe como a Quarta Força da Psicologia.

Entre os fatores mais comumente apontados, e que examinaremos a seguir, estão as necessidades decorrentes de fenômenos da mudança sócio-cultural; as novas perspectivas de compreensão e abordagem científica da realidade abertas pelos desenvolvimentos mais recentes das ciências naturais; e , no âmbito da Psicologia, certas decorrências do desenvolvimento da própria Psicologia Humanista.

Mudanças no Contexto Cultural

No contexto das intensas transformações culturais observadas na cultura ocidental nas últimas décadas e que, como vimos, estiveram também associadas ao desenvolvimento da Psicologia Humanista, houve um crescente interesse em espiritualidade, assim como um significativo aumento do número de pessoas envolvidas em espetaculares vivências de alteração e ampliação da consciência. Isto tem sido explicado, ao menos em parte, pela difusão do uso de substâncias psicodélicas, pela popularização de práticas meditativas e espirituais importadas do oriente ou difundidas a partir da abertura de antigas tradições esotéricas, e mesmo pela crescente valorização cultural desse tipo de experiência, antes inibida e reprimida como sinal de transtornos mentais, ou ainda de ignorância, primitividade, superstição e mesmo farsa.

Fossem tais vivências experienciadas como positivas, perturbadoras, ou meramente divertidas, o fato é que colocaram os psicólogos e as psicologias numa desconfortável posição. Chamados a explicar o que se passava e interferir como autoridades no assunto, pouco tinham a dizer ou fazer. Salvo referências a eruditos estudos antropológicos do que até então podia ser considerado como uma exótica curiosidade de culturas primitivas ou de fechados grupos religiosos, os psicólogos só tinham para repetir surradas lições de psicopatologia psiquiátrica, que logo se mostravam como inadequadas respostas àqueles que os procuravam  em busca de explicações e ajuda para entender e integrar tão extraordinárias vivências. Mesmo jovens psicólogos e pesquisadores, dentro do caldeirão de auto-experimentação psíquica que caracterizou os anos da Contracultura, vivenciavam essas alterações dramáticas, desconcertantes, intrigantes, e sobretudo instigantes, da própria consciência. Viu-se então a Psicologia desafiada a abordar o fenômeno com todos os instrumentos técnicos, metodológicos, teóricos e conceituais conhecidos, ou mesmo criando outros que se fizessem necessários.

Surgia todo um novo campo de estudos, até então negligenciado nos meios mais oficiais, e que agora se mostrava no descortinar de uma vasta gama de desconhecidos estados alterados da consciência, para utilizar uma expressão difundida no meio transpessoal por Charles Tart (1977). Em consequência dessa situação, verificou-se o explosivo aumento de pesquisas e teorizações na  área, estudos estes que não poderiam ser adequadamente encaixados nos ramos de estudo anteriormente delimitados para a Psicologia, nem tão pouco eram adequadamente abarcados pelas formulações teóricas mais correntes.

Da necessidade de intercâmbio de pesquisas e pontos de vista desses estudiosos isolados e deslocados nos meios mais oficiais, como outrora ocorrera com os psicólogos que se associaram no lançamento da proposta humanista, emergiam as condições para a articulação de um novo movimento congregador, envolvido agora na investigação privilegiada das experiências  inusuais e ampliadas da consciência humana.

Mudanças no Paradigma Científico

Entre os fatores extrínsecos mais comumente relacionados à emergência da Psicologia Transpessoal, é apontado o extraordinário desenvolvimento observado neste século no campo das ciências naturais, tais como a Física, a Química, a Biologia e a Fisiologia. Novas descobertas e teorias em ramos de ponta da pesquisa científica têm a tal ponto abalado as concepções estabelecidas de realidade e Ciência que, recorrendo-se à conhecida concepção de história da Ciência apresentada por Kuhn (1987), tem sido freqüentemente apontado que estaríamos em plena crise e revolução paradigmática, testemunhando o nascimento de um novo paradigma científico, isto é, uma nova concepção de realidade e Ciência. Tal revolução, de implicações não só científicas como sócio-culturais, teria significados e conseqüências tão transformadoras, ou mesmo mais ainda, que aquela iniciada outrora por Copérnico, que subvertendo a cartografia da realidade propiciou, entre outras coisas, o próprio nascimento das ciências naturais e da Civilização Moderna. Está sendo solapada em suas próprias bases a visão de mundo cartesiano-newtoniana, cujos princípios de ordenação lógica e causal, e de objetividade confiável das dimensões espaço-temporais, tinham até agora fornecido alicerce seguro para a paulatina e inexorável construção do edifício da Ciência. O novo paradigma que se insinua, e tem sido chamado de pós-moderno, holístico, holográfico, e mesmo transpessoal,  parece nos falar de um universo mais amplo, do qual a realidade em que até agora transitávamos em nossos projetos de investigação científica, não passa de uma estreita faixa, cuja existência, ao invés de se revestir de materialidade, parece dever à nossa consciência tanto quanto as delirantes visões de um psicótico se associam à sua subjetividade doentia. Na nova perspectiva científica, tempo e espaço são conceitos relativos; matéria e energia, uma questão de ponto de vista; parte e todo são sinônimos; relação causa e efeito um conceito anacrônico; consciência subjetiva e objetividade concreta, duas faces inseparáveis e intercambiáveis de uma mesma realidade unitária.

Essa insólita visão de mundo, inicialmente restrita a esotéricos círculos de pesquisadores e teóricos, acabou por despertar curiosidade no insatisfeito e questionador panorama da cultura em crise e, atravessando as fronteiras disciplinares, chega também à Psicologia, onde encontra eco e confirmação nos extravagantes  interesses e interrogações de isolados psicólogos envolvidos  em estudar os limites da consciência. Este surpreendente encontro entre ciências de tão distinto campo – o âmago da matéria e os confins da alma humana – é mediado por uma constatação mais desconcertante ainda: a nova visão de mundo e realidade, vislumbrada nas pesquisas mais especulativas e arrojadas, não era tão nova assim, mas imemorialmente vivenciada nas tradições religiosas,  na experiência dos místicos, e nos relatos transpessoais.

Assim, contextualizando-se em um quadro de revolução paradigmática, a Psicologia Transpessoal recebe estímulo para se consolidar como  movimento de contribuição e resposta da  ciência psicológica que se atualiza, ao desafio e tarefa que – tradicionalmente colocado a todo empreendimento científico – recebe agora renovados significados: conhecer, colocando este conhecimento a serviço da humanidade, a  realidade do universo que nos cerca.

A Psicologia Humanista e o Nascimento da Psicologia Transpessoal

Embora auto-intitulada a Quarta Força da Psicologia, a Psicologia Transpessoal não surge em oposição à Psicologia Humanista. Pelo contrário, como movimento de proposta mais inclusiva que contestatória, mantém estreita ligação com a Psicologia Humanista e, não obstante desta difira qualitativamente nas posições e interesses a ponto de caracterizar um novo movimento, a Psicologia Transpessoal é em geral entendida como uma ampliação ou extensão do Movimento Humanista, a partir de tópicos que haviam sido apenas perifericamente considerados nas formulações iniciais da Terceira Força. É aliás no próprio seio da Psicologia Humanista que se iniciam as articulações para o lançamento do novo movimento:

Na década de 60, durante o rápido desenvolvimento da psicologia humanística, tornou-se evidente que uma nova força emergia de seus círculos internos. Entretanto, a posição humanística, enfatizando o crescimento e a auto-atualização, era muito restrita e limitada para tal força. A nova ênfase residia no reconhecimento da espiritualidade e das necessidades transcendentais como aspectos intrínsecos da natureza humana e no direito de cada indivíduo escolher ou mudar seu caminho. Muitos renomados psicólogos humanísticos mostraram crescente interesse por várias áreas antes negligenciadas e por tópicos de psicologia como experiências místicas, transcendência, êxtase, consciência cósmica, teoria e prática de meditação ou sinergia inter-espécie ou interindividual.   (Grof, 1988, p. 138).

Mais uma vez,  a percepção de que as circunstâncias favoreciam a emergência de uma nova Força, e a iniciativa de encabeçar as articulações para seu lançamento, coube a Maslow e Sutich. Conforme relembra este último (Sutich, 1991), foi a partir das idéias que transpiraram em um seminário sobre Teologia Humanística promovido em 1966, que Maslow e ele amadureceram a constatação de que uma nova Força estava se impondo e fora erroneamente identificada como parte da Psicologia Humanista. De fato, em 1968, Maslow assim se expressaria na introdução à segunda edição de seu livro Introdução à Psicologia do Ser:

Devo também dizer que considero a Psicologia Humanista, ou Terceira Força em Psicologia, apenas transitória, uma preparação para uma Quarta Força ainda “mais elevada”, transpessoal, trans humana, centrada mais no cosmos que nas necessidades e interesses humanos, indo além do humanismo, da identidade, da individuação e quejandos (…). Necessitamos de algo “maior do que somos”  (Maslow, s. d., p.12).

A proposta, divulgada em conversas, seminários, artigos e troca de correspondências, logo encontrou destacados adeptos, sendo formado um comitê para organização de uma nova revista, dedicada ao que àquela altura chamavam Psicologia Trans-humanística. Das discussões desse comitê, presidido por Sutich e integrado por, além de Maslow, nomes do calibre de James Fadiman, Sidney Jourard, Michel Murphy e Miles Vich, completa em finais de 1967 a  definição e declaração de objetivos da nova Força. Em 1968, em discussão de que participaram também Viktor Frankl e Stanislav Grof, é adotado o  título Psicologia Transpessoal em substituição ao anteriormente proposto, e a revista lançada em 1969, sendo o movimento assim apresentado :

Psicologia Transpessoal (ou “Quarta Força”) é o título dado a uma força emergente no campo da Psicologia, representada por um grupo de psicólogos e profissionais de outras áreas, de ambos os sexos, que estão interessados naquelas capacidades e potencialidades ÚLTIMAS que não possuem um lugar sistemático na teoria positivista ou behaviorista ( “Primeira Força”), na teoria psicanalítica  clássica ( “Segunda Força”), ou na psicologia humanística (“Terceira Força”).   (Apud Sutich, 1991, p. 29).

Nos próximos itens, procurarei caracterizar a Psicologia Transpessoal em termos dos temas que privilegia em seus estudos; das posições que adota em sua proposta de Psicologia científica; da visão de natureza humana desenvolvida em suas teorias; e das técnicas e métodos que utiliza para investigação e atuação. Em todos os tópicos, na medida do possível, serão enfatizadas as relações e diferenças entre as posições transpessoais e humanistas.

2. CARACTERÍSTICAS

Temática Privilegiada.

Na declaração dos conteúdos de interesse para publicação, impressa no frontispício do primeiro numero da Revista de Psicologia Transpessoal, pode-se ter uma expressiva idéia dos campos temáticos caracteristicamente privilegiados na proposta da  Quarta Força:

A Revista de Psicologia Transpessoal ocupa-se da publicação da pesquisa teórica e aplicada, de contribuições originais, estudos empíricos, artigos e estudos sobre meta necessidades, valores últimos, consciência unitiva, experiência de pico, êxtase, experiência mística, valores B, essência, felicidade, respeito, milagre, auto-realização, significado último, transcendência do eu, espírito, sacralização da vida cotidiana, unidade, consciência cósmica, jogo cósmico, sinergia individual e da espécie, máximo encontro interpessoal, responsividade e expressão, e sobre os conceitos, experiências e atividades relacionadas. Como declaração de objetivos , esta formulação deve ser entendida como sujeita a interpretações opcionais individuais ou de grupos, tanto parcial quanto totalmente, com relação à aceitação de seus conteúdos como essencialmente naturalistas, teístas, sobrenaturalistas, ou qualquer outra classificação que se lhes dê. (Apud Sutich, 1991, p. 31)

Trata-se de uma listagem bastante extensa, cuja topificação em grande parte refere-se a termos relacionados a certas perspectivas teóricas mais específicas, sendo apresentada aqui mais pelo interesse histórico da declaração e para que se tenha um apanhado geral da amplitude e abertura de perspectiva dos interesses do Movimento Transpessoal. Ao invés de discorrer sobre cada um dos temas relacionados, o que além de resultar demasiado extenso provavelmente forneceria uma visão em tanto confusa e dispersiva, optei em centrar minha apresentação em torno de três tópicos gerais que, relacionados entre si, tem mais comumente sido apontados como a área privilegiada e característica das abordagens transpessoais: as potencialidades últimas; a espiritualidade; e os estados alterados de consciência, aí incluídas as experiências transpessoais.

A escolha, nas primeiras definições, do designativo genérico de potencialidades ÚLTIMAS como o objeto de estudo da Psicologia Transpessoal, assim como a indicação de temas análogos  (valores últimos, experiências de pico, máximo encontro interpessoal, significado último, estado final, consciência sensorial máxima, ponto ômega, relações últimas, etc.), parece relacionar-se às raízes humanistas do Movimento Transpessoal. Na verdade, a vinculação do surgimento da Psicologia Transpessoal ao Movimento Humanista é bem mais do que circunstancial, podendo, ao menos assim eu entendo, ser vista como uma decorrência lógica das próprias propostas da Terceira Força que, ao se declarar interessada em estudar e promover a saúde, o bem estar e o desenvolvimento do potencial humano, estimulou muitos investigadores a se questionarem sobre as possibilidades máximas dessas qualidades, os estados e potencialidades ÚLTIMAS desse desenvolvimento, ou aquilo a que Maslow  chamou de as mais longínquas buscas da natureza humana (The Farther Reaches of Human Nature, Maslow, 1971). Nessa busca, não raro, concluíam os investigadores que a auto-realização humana não se esgota no ser plenamente pessoa mas sim no ultrapassar da própria condição pessoal, acessando a dimensão cósmica, espiritual, ou transpessoal, do ser. Da mesma forma que se pode dizer que um rio – imagem a que freqüentemente os humanistas comparam a qualidade processual ideal do crescimento psicológico saudável – não encontra auto-realização em ser plenamente rio, mas que esta, em última instância, só se concretiza quando vai além de ser rio e se torna parte do mar; também para a perspectiva transpessoal é na transcendência dos próprios limites da pessoa que, paradoxalmente, sua realização última pode ser obtida. Neste sentido, a proposta transpessoal é qualitativamente distinta da humanista :

Isto é, a orientação transpessoal tem como conceito fulcral a “auto-transcendência”, o que, em última análise a diferencia da orientação humanista, cujas metas básicas de desenvolvimento localizam-se na “auto-realização”. Assim, na psicoterapia transpessoal, a capacidade humana para “auto-transcendência”, além da auto realização, é reconhecida como etapa final do desenvolvimento”. ( Grof, 1988, p. 133)

A espiritualidade, ou a dimensão espiritual do homem, segundo tópico de nossa caracterização temática, identifica o Movimento Transpessoal como a primeira corrente da Psicologia contemporânea que dedica atenção sistemática e privilegiada à dimensão espiritual da experiência humana, até então ignorada, negada, negligenciada ou reduzida a derivações secundárias de outras faixas inferiores do ser, como a sexualidade e a agressividade sublimadas, por exemplo. O próprio uso mais ou menos freqüente e generalizado do termo espiritual que os transpessoais fazem, tomando emprestado à Religião este e outros vocábulos, na falta de termos próprios na tradição psicológica ocidental, fala-nos do desinteresse da Psicologia pelo assunto. Como diz Maslow:

(…) é quase impossível falar “vida espiritual” (frase desagradável para um cientista, em particular para os psicólogos) sem usar o vocabulário da religião tradicional. Simplesmente ainda não existe outra linguagem satisfatória. Uma excursão pelos léxicos poderia demonstrá-lo com rapidez (Maslow, 1964, p. 4)

Na verdade, a aceitação do homem como ser cuja auto-realização final envolve a auto-transcendência e o acesso a uma dimensão cósmica ampliada de participação universal, naturalmente tende a aproximar a Psicologia Transpessoal das concepções religiosas da natureza humana, as Psicologias Espirituais como denominou Tart (1979), as quais imemorialmente defendem este ponto de vista como pressuposto que fundamenta a própria Religião, conforme já constatara William James em seus estudos sobre as variedades da experiência religiosa:

Resumindo da forma mais ampla possível as características da vida religiosa, tais como elas se nos deparam, encontramos as seguintes crenças:

1. Que o mundo visível é parte de um universo mais espiritual do qual ele tira sua principal significação;

2. Que a união ou relação harmoniosa com este universo mais espiritual é nossa  verdadeira finalidade;

3. Que a oração ou comunhão interior com o espírito desse universo mais elevado – seja ele “Deus” ou “ordem” – é um processo em que se faz realmente um trabalho, e em que a energia espiritual flui e produz efeitos, psicológicos ou materiais, dentro do mundo fenomênico. (James, 1991, p. 300).

Naturalmente, sendo a Psicologia Transpessoal uma proposta de Psicologia científica, e não se filiando enquanto movimento a nenhuma concepção religiosa específica de mundo, sua abordagem do espiritual e do religioso se fará pela via do empírico, pela atenção ao fenômeno experiencial em si, assim como pela consideração de seus efeitos psicológicos e suas implicações para a compreensão da estrutura, da dinâmica e do desenvolvimento da personalidade.

Não só no interesse despertado pela singular fenomenologia relatada nas experiências espirituais, místicas ou religiosas, mas também pela abordagem de outros fenômenos extraordinários de alteração e ampliação da consciência, os quais, como vimos, crescentemente se apresentam no contexto cultural atual como desafio para a Psicologia, é que se pode caracterizar o campo de estudos privilegiado da Psicologia Transpessoal: Os estados alterados da consciência. Pierre Weil chega mesmo a definir :

A Psicologia Transpessoal é um ramo da Psicologia especializada no estudo dos estados de consciência; ela lida mais especialmente com a “experiência cósmica” ou os estados ditos “superiores” ou “ampliados” da consciência. (Weil, 1978, p. 9).

O estudo da consciência como objeto central da Psicologia, abandonado desde que a objetividade behaviorista superou as propostas de Wundt e William James, e que Freud, descortinando a parte submersa do iceberg, apontou o subconsciente como a dimensão  psíquica predominante, já começara a ser recuperado pela Psicologia Humanista, com sua ênfase na experiência consciente, entendida como dimensão do psiquismo onde a pessoa exerce suas potencialidades de liberdade, escolha, autonomia e intencionalidade. A concepção transpessoal da existência de  outros estados de consciência além dos tradicionalmente aceitos pelas teorias correntes (vigília, sonho, sono sem sonhos, intoxicação, e alguns estados intermediários), muitos dos quais entendidos como estados supra-conscientes cujas potencialidades na promoção da saúde e crescimento superariam em muito as do estado normal de vigília e as derivadas da análise das faixas infra-conscientes descobertas por Freud, faz da exploração das possibilidades últimas da consciência o interesse primordial das teorias, pesquisas e aplicações da Psicologia Transpessoal. Coube a Charles Tart, pesquisador e teórico cuja contribuição é notável não só no campo da Psicologia Transpessoal mas também no da Parapsicologia, recuperar para a Psicologia atual a anacrônica expressão estados de consciência, acrescentando-lhe o adjetivo alterados, para definir conceitos que se mostraram de largo uso, contribuindo para o vocabulário técnico e operacional da Quarta Força da Psicologia. Não obstante o uso do adjetivo alterado tenha por vezes sido criticado por parecer sugerir algo artificial ou com conotações patológicas, estando mais em voga atualmente a utilização nos meios  transpessoais da expressão estados inusuais – ou não-ordinários – de consciência e, não obstante ainda, também ser por alguns questionado o próprio uso da expressão estados de consciência  por entenderem  que a  alteração desta se processa em um contínuo e não em estados delimitados, as definições de Tart permanecem importantes e atuais:

De um modo bastante conciso, “um estado de consciência” (SoC) é aqui definido como um padrão generalizado de funcionamento psicológico. Um “estado alterado da consciência” (ASC) pode ser definido como uma alteração qualitativa no padrão comum de funcionamento mental em que o experienciador sente que a sua consciência está radicalmente diferente do seu funcionamento “normal”. Deve-se notar que um ASC não é definido por um conteúdo particular da consciência, por um comportamento, ou por uma modificação fisiológica, mas em termos de seu padrão total.(Tart, 1991, p. 41)

Embora os estados alterados de consciência em geral interessem à Psicologia Transpessoal, é em especial naqueles em que a consciência se expande ou amplia para além dos limites usuais da vigília, que os estudos estão concentrados. Mesmo que se questione a existência de estados realmente superiores – que a rigor, para Tart seriam aqueles em que não só todas as funções do estado habitual estivessem mantidas, como fossem ainda mais eficientes e/ou acrescidas de funções novas – o conceito de experiências transpessoais, definidas por Grof (1988) como aquelas em que há o sentimento de expansão da consciência para além das fronteiras egóicas comuns e das limitações do tempo e do espaço (p. 104), pode esclarecer o campo de interesses característico e exclusivo (no sentido de que é a única corrente que sistematicamente o aborda) da Psicologia Transpessoal.

Além dos tópicos subentendidos nas orientações temáticas gerais aqui apresentadas, outros temas típicos do Movimento Transpessoal estão relacionados às suas propostas epistemológicas e científicas; ou à suas concepções da natureza humana; ou ainda às suas formas próprias de abordagem e atuação. Isto examinaremos nos próximos itens.

Modelo de Ciência

Da mesma forma que a Psicologia Humanista, a Psicologia Transpessoal, enquanto movimento, assume e defende posições epistemológicas típicas, propondo para a Psicologia a adoção de um modelo de ciência distinto do tradicional modelo naturalista. Novamente, porém, vamos encontrar significativas diferenças, de grau e qualidade, entre a proposta humanista e a transpessoal. Os psicólogos humanistas, em geral, defendem para a Psicologia um modelo de ciência do homem, de base compreensiva, fenomenológica, idiográfica, holista e teleológica; em contraposição à perspectiva objetivante, explicativa, reducionista, normativa, elementarista e determinista do modelo tradicional das ciências naturais, o qual, entretanto, via de regra respeitam como abordagem  adequada ao mundo das coisas, tão distinto – assim entendem – do mundo humano. Grande parte aliás do debate entre a Psicologia Humanista e o Behaviorismo – e também com certas concepções mecanicistas do modelo hidráulico da Psicanálise – se trava neste tópico de qual dos dois modelos, o naturalista ou o humanista, é adequado para a Psicologia. Mas, enquanto este já quase monótono e repetitivo debate se prolongava nos círculos da Psicologia, as ciências naturais evoluíam a passos – ou melhor, saltos – enormes, tornando ultrapassadas as posições anteriormente identificadas como seu modelo científico, e generalizando em seu meio a convicção de estar em curso uma revolução do paradigma geral da Ciência. Assim, como vimos, o Movimento Transpessoal, assumindo a leitura de queestá em curso uma revolução paradigmática, ao invés de contrapor ciências humanas e ciências naturais, realiza intensa aproximação destas últimas, só que já entendidas dentro de um novo paradigma unificado – holístico, pós-moderno, holográfico e transdisciplinar – da Ciência. Capítulos inteiros dedicados às novas descobertas da Física, da Química, da Pesquisa Cerebral, entre outras, são uma constante em livros de Psicologia Transpessoal, onde citações de cientistas como Bohm, Bohr, Einstein, Prigogine, Bell, Pauli, Heisenberg, Teilhard de Chardin, Capra, Pribam, Sheldrake, e muitos outros, chegam às vezes a ser mais freqüentes que as dos mais renomados psicólogos. Do outro lado, nas modernas ciências naturais, a aproximação  é  recíproca. É mesmo um fato curioso, que eu próprio tenho observado, que a Psicologia Transpessoal desperte menos interesse entre os psicólogos que entre os praticantes dessas ciências, os quais, talvez por dever de ofício, em geral encontram-se melhor familiarizados com as novas perspectivas paradigmáticas, sintonizando com facilidade o ponto de vista e o discurso adotado pelos psicólogos transpessoais.

Atônitos e fascinados com a descoberta de uma realidade só anteriormente concebida nas esotéricas tradições espirituais e nas mais visionárias experiências místicas e transpessoais de alteração da consciência, às quais crescentemente recorrem como ilustração, confirmação e mesmo inspiração de suas teorias revolucionárias, os novos cientistas cada vez mais assumem a constatação do físico James Jeans  de que o universo parece mais com um  grande pensamento do que com uma grande máquina. No estudo desse novo mundo em que a realidade psíquica parece inseparável da realidade material, as ciências naturais  recorrem crescentemente a modelos desenvolvidos nas ciências humanas – fala-se por exemplo em sociologia dos elétrons – a ponto de  se poder afirmar, como o faz Boaventura de Sousa Santos (1988), que: Não há natureza humana porque toda natureza é humana. (p. 63). Mais que isto, temas como consciência – e não só consciência humana! – até há pouco impensáveis em ciências que primavam pela objetividade empírica, passam a ser de crucial importância no desenvolvimento das pesquisas e teorias. Comentando a célebre afirmação de Watson, criador do Behaviorismo, de que a Psicologia já estava apta a abandonar qualquer menção à consciência, tornando-se um ramo puramente objetivo e experimental das ciências naturais que necessita tão pouca introspecção quanto as ciências da física e da química, a física e filósofa Danah Zohar (s.d.) afirma: Ironicamente, esta linha de pensamento é hoje tão obsoleta para a física quanto foi obsoleta para a psicologia (p.57). Assim é que, também ironicamente, mutatis mutandis  e de uma perspectiva totalmente inversa, a Psicologia Transpessoal reedita o ideal behaviorista de ver a Psicologia irmanada às ciências naturais dentro de um mesmo modelo e proposta de Ciência unificada.

O paradigma científico emergente tem sido freqüentemente intitulado holístico ou holográfico. O termo holos (todo, em grego) foi utilizado pelo estadista e pensador sul-africano Jan Smuts, no seu livro publicado em 1926, para formular a proposta do Holismo, teoria que, opondo-se a concepções atomistas, propõe como característica fundamental da Natureza a tendência para promover a evolução no sentido de totalidades cada vez mais complexas e organizadas. Quase desapercebidas na época, suas idéias influenciaram Adler (um dos dissidentes de Freud cujas teorias antecederam e influenciaram em diversos aspectos o Movimento Humanista) e, sendo de resto coerentes com a proposta da Psicologia da Gestalt ( o todo é mais que a soma das partes ), o ponto de vista holista obteria ainda maior apoio com a Teoria Geral dos Sistemas, de Von Bertalanffy, cuja concepção transdisciplinar do comportamento dos sistemas, tem possibilitado inúmeras aplicações e desenvolvimento nas psicologias que a adotam. Assim essa perspectiva generalizou-se entre as teorias humanistas, as quais, de uma maneira geral, caracterizam-se pela abordagem holista, ou organísmica, ou sistêmica, da pessoa humana, em contraposição às posições elementaristas e reducionistas que criticam nas Forças precedentes.

Entretanto, a  visão holística do novo paradigma, que assume como uma das propostas centrais a superação de todas as fronteiras disciplinares e mesmo o rompimento da compartimentalização das áreas do saber humano (donde se vêem crescentes aproximações transdisciplinares entre Filosofia, Ciência, Arte e Religião), difere substancialmente – embora não contrarie – da visão holista do Movimento Humanista.

Para compreender as semelhanças e diferenças entre as duas perspectivas, que aqui diferencio pelas denominações de holista e holística, convém uma breve exposição dos princípios da holografia, a técnica de reprodução tridimensional de imagens, cujas características instigantes têm levado distintos proponentes do novo paradigma a apresentá-lo a partir do modelo, ou metáfora, da holografia.

A foto tridimensional foi pela primeira vez teoricamente concebida em 1947 pelo ganhador do Prêmio Nobel Denis Gabor, mas só pode ser concretizada em 1965, com a invenção do raio laser. Ao invés de reproduzir imagens por pontos localizados espacialmente em superfícies quimicamente sensíveis à luz, como ocorre na fotografia comum, o que é registrado no holograma ( a matriz da holografia ) são os padrões de interferência de dois feixes de luz laser, a um dos quais foi interposto o objeto que se quer grafar. Exposto novamente a um feixe de luz, o padrão registrado no holograma, projeta uma reprodução espectral tridimensional da imagem do objeto, a chamada holografia. Independentemente da compreensão deste processo – confesso que eu próprio ainda não entendi muito bem – o que nos é relevante considerar é a interessante característica da holografia, que tem inspirado  cientistas dos mais variados campos à criação de modelos teóricos análogos:

Holografia é um método de fotografia sem lentes no qual o campo ondulatório da luz espalhada por um objeto é registrado em uma chapa sob a forma de um padrão de interferência. Quando o registro fotográfico – o holograma -é exposto a um feixe de luz coerente, como um laser, o padrão ondulatório original é regenerado. Uma imagem tridimensional aparece.

Como não há focalizador, isto é, lentes focalizadoras, a chapa tem  a aparência de um padrão de espirais destituído de significado.  Qualquer pedaço do holograma pode reconstruir a imagem inteira.    (Wilber et al., 1991, p 12)

Assim, indo além da proposta holista da visão humanista – o todo é mais que a soma das partes – a visão holística das novas ciências – aí incluída a Psicologia Transpessoal – afirma que a abordagem deve ser holográfica, pois a parte contém o todo, ou seja, qualquer elemento de um todo é como um holograma no qual, ainda que em menor detalhe, é identificável a qualidade isomórfica do padrão de complexidade e interdependência existente na configuração total.

Concepções radicais, em disciplinas distintas e independentes, parecem convergir em torno de uma concepção holográfica da natureza da realidade. Talvez a mais conhecida destas coincidências e complementariedade de concepções teóricas independentes, seja o caso das teorias de Karl Pribram e David Bohm. O primeiro, destacado pesquisador do cérebro, sugere um modelo holográfico do funcionamento cerebral para superar o enigma da localização da memória, pois insistentes pesquisas pareciam não deixar outra resposta à intrigante constatação de que a informação se distribui por todo o cérebro, sendo por inteiro recuperável a partir de qualquer parcela. O segundo, eminente físico teórico, na tentativa de integrar inquietantes e paradoxais teorias, pesquisas e concepções no campo da micro e da macro física, propõe uma teoria holográfica do universo, por ele  concebido como um contínuo dobrar-se e desdobrar-se das formas aparentes  – a ordem exposta – a partir de uma realidade mais profunda, transcendente e subjacente a tudo que existe: a ordem implicada da qual tudo é imagem holográfica. O encontro das idéias dos dois cientistas originou a proposta de que o cérebro era uma estrutura de funcionamento holográfico que interpretava um universo de natureza igualmente holográfica, produzindo a realidade – ou realidades – em sua construção espaço-temporal de imagens da realidade unitária transcendente. Aliás, a indissociabilidade da relação entre mente e realidade, implicada em diversas concepções das modernas ciências naturais, lança nova luz sobre o secular problema mente-corpo, tradicional e de longa história no desenvolvimento da Psicologia. As novas descobertas e teorias, recuperando concepções milenares da Religião e Filosofia, sugerem que as realidades se constituem a partir de uma filtragem e reconstrução holográfica realizada pela mente em sua relação com a realidade inefável implicada no âmago do mundo fenomenal ilusório, não obstante a própria mente não seja mais entendida como organicamente contida no cérebro (algumas propostas crêem ser a mente, na verdade, obstruída pelo cérebro). As relações mente/cérebro/realidade constituem aliás uma das principais temáticas unificadoras dos novos interesses científicos

Escapa aos propósitos desta breve caracterização formular um inventário, ainda que resumido, das principais descobertas e tendências que, à semelhança de um mosaico em formação tem se associado, a partir de diversas ciências, na configuração e emergência de um novo paradigma científico. Desejo me referir apenas a algumas decorrências dessas novas visões, que me parecem implicar radicalmente a Psicologia Transpessoal. Márcia Tabone (1988), em uma colocação bastante feliz, afirma que podemos entender o “movimento transpessoal” como o resultado de esforços para ajustar a Psicologia ocidental ao paradigma emergente, contribuindo para a assimilação das novas premissas em seu campo de pensamento (p. 160).  Desse ponto de vista e também na sua recíproca, de adequar as outras ciências às novas premissas emergentes da pesquisa transpessoal, alguns desafios que se colocam para Psicologia atual só me parecem concebíveis, e encaráveis, numa perspectiva transpessoal:

Em primeiro lugar, o empirismo e o racionalismo estritos, associados ao estado de consciência lógico e objetivo com que a Ciência tentou superar o saber do senso comum e do pensamento mítico, foram desmascarados como uma abordagem bastante limitada em seu alcance e confiabilidade, sendo na verdade incapazes de se adequarem à compreensão científica de certos níveis e processos da natureza. Já anteriormente criticada como inadequada e limitada quando aplicada ao estudo do mundo humano, essa atitude científica é agora igualmente denunciada como inútil e enganadora para um entendimento mais profundo da própria realidade do mundo das coisas. Mais que a atitude, o próprio estado de consciência em que esta se insere, ou seja, a consciência objetiva, o estado de vigília mais racional, entendido até há pouco como o ideal e superior estado de adequação ao princípio da realidade, mostra-se agora em pé de quase igualdade aos estados ilusórios dos sonhadores, dos poetas, dos loucos e dos visionários: todos são limitados a visões  parciais, de confiabilidade relativa e restrita. Stanley Krippner (1991) chega a apontar que a Ciência não só cumpre na civilização moderna a função de mitologia (nível de conhecimento que orgulhosamente os cientistas pretendiam ter superado), como ainda é uma mitologia incompleta, por deixar esquecido, entre outras coisas, o aspecto transcendente da realidade. Com o desmascaramento da objetividade científica, a questão da consciência e suas relações com a realidade, deixou de ser de interesse restrito da Psicologia e da Filosofia, e volta ao centro da discussão preliminar de qualquer empreendimento em Ciência, no repensar epistemológico provocado pela desintegração de um paradigma.

Mais que a consciência e os estados alterados em geral, são os estados ampliados, as vivências transpessoais, o tópico que parece mais relevante e promissor como campo de estudos e contribuição próprios da Psicologia, na leitura de revolução paradigmática a que o Movimento Transpessoal adere. Os novos conhecimentos sugerem, como diz o grande biólogo  J. B. S. Haldane (citado por Ferguson, s. d.) que a realidade não é apenas mais estranha do que concebemos, mas mais estranha do que podemos conceber (p.150). É portanto no inconcebível, no transracional, que a ciência está adentrando. Aparentemente, só em estado alterado e ampliado de consciência se poderá em breve teorizar, produzir, compreender e utilizar conhecimento nos ramos de ponta de qualquer disciplina científica. Charles Tart (1979, 1991), em lúcida percepção, aponta a correspondência entre paradigmas científicos e estados específicos de consciência, demonstrando que a Ciência do paradigma tradicional é uma ciência do estado de vigília, estado no qual se desenvolve toda investigação, teorização e intercâmbio científico. Ora, parece que a Ciência, ao mudar de paradigma, está caminhando para o que Tart previu e propôs: ciências de estado específico, baseadas em observações, dados, hipóteses, procedimentos, teorizações e raciocínios só compreensíveis, comunicáveis e testáveis por cientistas que compartilhem o mesmo nível de consciência na percepção e no pensar da realidade. Hoje em dia, como observei acima, parece mais fácil a troca de informações, compreensão e cooperação entre ciências bastante distintas – o que até há pouco vinha se tornando quase impossível, dado o esoterismo da especialização – desde que comunguem as novas visões; ao passo que vem se tornando cada vez mais difícil, mesmo dentro de um bem específico ramo do conhecimento, o diálogo entre investigadores afinados ao paradigma tradicional e os que se vinculam ao emergente. Repentinamente, o discurso dos físicos é quase indistinguível do dos místicos (como demonstrou Leshan, 1991), os quais, parecem ter há séculos obtido acesso a substratos mais reais da realidade, que só agora a Ciência adentra, observa, e até descreve matematicamente, mas não concebe, enquanto não muda a faixa de consciência do cientista que a pratica. Torna-se urgente, não só do ponto de vista teórico, mas inclusive do prático e metodológico, a compreensão do espectro ampliado da consciência humana e dos meios de nele transitar. Alterar a consciência não é mais um comportamento exclusivo de doentes mentais ou drogados. Tão pouco tem utilidade exclusivamente para artistas, religiosos ou filósofos. A alteração da consciência, mais que assunto ou objeto de estudo da mais alta relevância, tende a se tornar condição prévia para o próprio exercício da Ciência, para que os investigadores possam se manter atualizados e produtivos nos ramos mais tradicionais e respeitáveis da atividade científica. Além do mais, a alteração da consciência parece ser a possibilidade de um caminho, no mínimo, mais barato para acessar dimensões da realidade que, por outros meios, só são investigáveis mediante recursos tecnológicos caríssimos e, muitas vezes, altamente perigosos

Mais ainda, e aqui chegamos a alguns dos aspectos mais insólitos das modernas ciências naturais, o estudo da consciência parece não só importar como questão de relevância epistemológica, ou como instrumento metodológico, para o avanço da pesquisa e teorização nas outras ciências, além do evidente interesse, próprio da Psicologia, de ampliar a compreensão sobre o homem e seus potenciais, inclusive o  de intervenção psicológica – talvez melhor seja aqui dizer parapsicológica – no mundo físico (possibilidade esta perfeitamente aceitável dentro da novas propostas paradigmáticas). Mais que esses motivos – que sobejamente justificam o desenvolvimento da Psicologia Transpessoal – há crescentes indicações, em pesquisas de Física,  Química e  Biologia, de que a consciência não é característica só humana ou animal, mas o próprio substrato do Universo. O crescer e o confirmar científico de concepções desse naipe, já largamente aceitas no modelo de ciência das teorias transpessoais, romperá de vez as barreiras disciplinares, abrindo para a Psicologia a possibilidade instigante de estudo direto – e sem trair seu campo próprio de interesses! – do mundo das coisas, até há pouco chamadas de  inanimadas.

E por fim ( ou melhor, antes que seja o fim), cresce a percepção de que a mente em estado de consciência normal não só é incapaz de acompanhar e explorar as transformações e a abertura de novas vias, emergentes no desenvolvimento científico, como também se mostra impotente em enfrentar as crescentes, complexas e multi-faceadas crises que ameaçam o futuro da humanidade. Em um beco cada vez mais sem saída, a mente do homem atual vem sendo pressionada a ousar, como única escapatória, um salto qualitativo – um salto quântico – de mudança radical em direção a uma nova forma de ser e perceber, salto este que parece necessariamente implicar uma alteração e ampliação do estado usual de consciência. Embora não lhe pertença mais a palavra especializada definitiva, pois especializações e compartimentalizações do saber têm se tornado uma impossibilidade, não pode a Psicologia furtar-se à responsabilidade de, como a Ciência da  Consciência  (assim propõem os transpessoais)  enfrentar o desafio, crucial para a espécie humana, que é aumentar o conhecimento no campo dos mistérios e possibilidades últimas da consciência humana em sua relação holográfica com a Realidade e a Consciência Universal.

Visão de Homem

Além da temática que privilegia e das dimensões do ser e da consciência em que suas pesquisas e teorizações se desenvolvem, o que define determinada escola como pertencente à Psicologia Transpessoal é o  modelo ou, visão de homem, que reconhece e adota. Walsh & Vaughan (1991), em suas conhecidas definições de Psicologia e Psicoterapia Transpessoal apontam:

A psicologia transpessoal está voltada para a expansão do campo da pesquisa psicológica a fim de incluir o estudo da saúde e do bem estar psicológicos ótimos. Ela reconhece o potencial da vivência de uma ampla gama de estados de consciência, em alguns dos quais a identidade pode estender-se para além dos limites usuais do ego e da personalidade.

A psicoterapia transpessoal inclui áreas e preocupações tradicionais, às quais acrescenta o interesse em facilitar o crescimento e a percepção para além dos níveis de saúde tradicionalmente reconhecidos. Reiteram-se nela a importância da modificação da consciência e a validade da experiência e da identidade transcendentais. (p. 18)

De uma maneira geral, o que distingue e caracteriza a visão de homem adotada pelas teorias e escolas da Psicologia Transpessoal é a aceitação, sob diversas concepções, da existência de instâncias superiores do potencial humano, inacessíveis ao estado usual de vigília, mas disponíveis mediante a vivência dos estados alterados e ampliados da consciência. Assim, como a Psicologia Humanista enfatizou os aspectos conscientes e auto-realizadores da natureza humana, a Psicologia Transpessoal, em busca do bem estar e saúde ótimos, vai além, destacando as potencialidades de auto-transcendência e espiritualidade em que, paradoxalmente, a própria condição humana é ultrapassada, e a pessoa reencontra sua dimensão trans-humana, transpessoal, cósmica ou mesmo divina. Entretanto, o uso de termos como espiritual, transpessoal, divino, trans ou meta humanos, não exclui a compreensão de que a busca da transcendência seja encarada como algo natural, isto é, intrínseco à natureza humana:

Transcendência também significa tornar-se divino ou assemelhado a Deus, indo além do meramente humano. Mas é necessário que aqui sejamos cautelosos para não fazer deste tipo de colocação algo extra-humano ou sobre-humano. Eu penso na utilização da palavra “meta-humano” (…) como forma de enfatizar que este tornar-se muito elevado ou divino ou assemelhado a Deus é parte da natureza humana mesmo que não seja freqüentemente observado de fato. Ainda assim permanece como potencialidade da natureza humana. (Maslow, 1969, p. 61)

Na verdade, para os psicólogos transpessoais, a tendência a buscar a realização espiritual, mediante a transcendência de todas as limitações à consciência, é encarada como uma necessidade tão básica como a também defendida como natural tendência (proposta pelos humanistas e em geral aceita pelos transpessoais) a buscar a auto-atualização e o crescimento emocional. Para Sutich (1973) os impulsos na direção de um estado último são contínuos em toda pessoa (p. 2), embora não estejam necessariamente conscientes, enquanto que para Maslow é sobretudo a partir da satisfação das necessidades inferiores (ou de deficiência) que o comportamento do indivíduo passa a ser orientado para a satisfação das necessidades superiores (necessidades de Ser ou  meta-necessidades), as quais, constituindo-se na busca dos valores intrínsecos e espirituais, são um aspecto essencial da condição humana:

Assim, a vida espiritual é parte de nossa vida biológica. Ë a sua parte “superior”, mas nem por isso menos parte sua (…) a vida espiritual é parte da essência humana. É uma característica definitória da natureza humana, elemento sem o qual esta não é plena. Compõe o Eu Real, a identidade de cada um, o núcleo interior de cada pessoa, a pertinência à espécie, a plena humanidade. (…) paradoxalmente, nossa natureza “mais elevada” é também “nossa natureza mais profunda. (Maslow, 1991, p. 139)

É na questão da consciência e seus estados, o objeto de interesse central das psicologias transpessoais, onde talvez se encontrem as posições mais características e singulares relativas à visão de homem apresentada pela Quarta Força. Walsh & Vaughan (1980, 1991), autores que se preocuparam em esclarecer os modelos de pessoa e de psicoterapia  implícitos nas psicologias transpessoais, descrevem a proposta transpessoal sintetizando os posicionamentos característicos em quatro tópicos: consciência, condicionamento, personalidade e identidade. Com relação à consciência afirmam que:

Esse modelo transpessoal considera a consciência como uma dimensão central que oferece a base e o contexto de toda a experiência. As psicologias ocidentais tradicionais têm tido posições diferentes no tocante à consciência. Elas vão do comportamentalismo, que prefere ignorar a consciência diante da dificuldade de pesquisá-la objetivamente, às abordagens humanista e psicodinâmica, que a reconhecem, mas em geral dão maior atenção aos conteúdos que à consciência em si como o contexto da experiência.

O  modelo transpessoal considera nossa consciência comum um estado contraído e defensivo (…) A consciência ótima é considerada bem mais ampla e potencialmente disponível a qualquer momento, se a contração defensiva for relaxada. A perspectiva fundamental do crescimento é, pois, abandonar essa contração defensiva e remover os obstáculos ao reconhecimento do potencial ampliado sempre presente por meio do apaziguamento da mente e da redução da distorção perceptiva. (1991, pp. 60-61)

Costumo explicar a concepção transpessoal de consciência recorrendo à mesma imagem do iceberg com que Freud explicava sua idéia de subconsciente. Para ele, a relação entre a parcela de nossa vida psíquica de que temos consciência e a parcela predominante, que se situa abaixo do nível consciente, pode ser comparada à relação entre a pequena parte de um iceberg  que é visível à superfície do mar e a parte submersa, muito maior e predominante na movimentação do iceberg como um todo. Considerando-se essa imagem como adequada descrição dos domínios individuais do consciente e do inconsciente, podemos também utilizá-la para compreender a concepção transpessoal da existência de uma consciência ótima bem mais ampla e potencialmente disponível a qualquer momento, da qual nossa consciência comum é considerada como um estado contraído e defensivo. Se a parte oculta do iceberg é maior que a parte emersa, muito maior ainda é o mar, do qual o iceberg nada mais é que uma porção contraída e defensiva (congelada e rígida), mantendo-se separado e diferenciado apenas enquanto perdura a ilusória defensividade que não permite perceber que tanto o mar como o iceberg têm a mesma natureza, são um único todo constituído de água, distintos apenas pelo estado momentâneo da água de que ambos são feitos. A seguinte colocação de William James traduz bem esta visão que é típica do Movimento Transpessoal:

De minha experiência (…) uma conclusão estabelecida emerge dogmaticamente (…) há um continuum de consciência cósmica, contra o qual nossa consciência apenas constrói cercas acidentais e dentro do qual nossas várias mentes mergulham como se dentro de um mar-mãe ou de um reservatório. (Apud Fadiman & Frager, 1979, p. 165)

Nesta imagem de James, quando diz que nossas várias mentes mergulham no reservatório da consciência ampliada, fica clara outra posição típica do Movimento Transpessoal na questão da consciência: há níveis ou dimensões da consciência que não são restritos às individualidades, mas coletivos (na expressão de Jung) e compartilháveis a qualquer momento. Nossa separatividade desse reservatório ou mar-mãe comum é uma ilusão defensiva, semelhante à de vários icebergs que se entrechocam sem constatar o isomorfismo de suas constituições individuais e do próprio meio em que se movem, do qual se separam e destacam unicamente por uma questão de estado da água, o que em nossa analogia equivale ao estado de consciência em que as diversas consciências individuais – contraídas e defensivas – experimentam a ilusão de sua separação do oceano ilimitado da Consciência Cósmica.

Frise-se ainda que, para uma concepção bastante generalizada no meio transpessoal, a consciência não é considerada um subproduto orgânico da evolução cerebral, tão pouco exclusividade humana, sequer animal ou vegetal, sendo proposta antes como o próprio substrato em que todas as realidades se constroem. Sem encontrar limites no tempo ou no espaço, a Consciência pré e pós existe a tudo, a tudo permeia, a tudo envolve, e a tudo ultrapassa, como contexto e pano de fundo em que tudo se dá. O próprio termo Consciência Cósmica, que para G. Murphy (in Frick, 1975) define a experiência em que há uma perda do sentido de contraste ou oposição entre o eu e o mundo. O conteúdo do eu é, pois, o conteúdo do mundo; o indivíduo é arrebatado no júbilo de união com o cosmo (p. 199) esclarece esta concepção, já que não se está falando em sentido figurativo ou meramente vivencial, mas  concreto (se é que se pode adjetivar assim essa dimensão transcendente da realidade), isto é, na experiência de compartilhar com o cosmos a sua (do cosmos) identidade.

Na visão ampliada que a Psicologia Transpessoal apresenta, o ser humano, para além dos aspectos individuais e biográficos de sua consciência e personalidade, e para além do organicamente explicável pelos processos fisiológicos ou cerebrais, é considerado como implicado em uma dimensão (a Consciência) que, a um só tempo, é matriz de sua identidade e integra inclusivamente (ou holograficamente) o todo da criação. Uma dimensão além da realidade conhecida no estado de vigília, além do espaço e do tempo, para além das dicotomias (eu/mundo, sujeito/objeto, mente/corpo, espírito/matéria), onde os pesquisadores transpessoais acreditam estar tratando do mesmo objeto – ou seria sujeito? – que os modernos físicos quânticos e astro-físicos, e encontrando sentido nas afirmações de Pribam e Bohm de que nossa consciência é um holograma de um universo holográfico. Vemos assim que, pelo salto qualitativo que tais concepções implicam, encontramo-nos bem distantes da posição humanista mais clássica, pois esta, apesar de toda ênfase no awareness e na faixa consciente da experiência pessoal, está bem aquém de aceitar a existência da consciência fora do contexto do organismo e seu campo perceptivo e vivencial mais imediato. Da mesma forma, a visão holista dos humanistas, aplicada à consciência (a consciência é mais ampla e transcende seus elementos e conteúdos particulares) encontra-se aquém da visão holográfica da Psicologia Transpessoal, em que as consciências particulares, potencialmente, são isomórficas e podem ressoar em uníssono – a incluindo –  com a Consciência Universal.

Assim, adotando a aceitação da existência de uma vasta gama de domínios, ou faixas, ou estados, da consciência, é uma proposta tipicamente transpessoal traçar mapas dessas regiões do psiquismo, elaborando as chamadas cartografias da consciência (veja-se, por exemplo, as cartografias apresentadas por Assagioli, 1976; De Ropp, 1968; Goleman, 1978; Grof, 1983; Lilly, 1973; Metzner, 1971; Nagelschmidt, 1987; Ring, 1978; e Wilber, 1990). Nesses mapeamentos, além das faixas reconhecidas e exploradas pelas outras psicologias, invariavelmente apresentam, como de fundamental importância em seus modelos teóricos, níveis onde não só se ultrapassam os limites da personalidade e biografia pessoal, como também os da própria condição humana, acessando domínios trans-humanos da consciência, e mesmo trans-naturais, na medida em que não se restringem nem aos três reinos conhecidos da natureza.

A conceituação do eu e da identidade e autonomia pessoais, assim como da própria estrutura e desenvolvimento da personalidade do indivíduo, questões estas tão centrais e vitais nas teorias humanistas, costumam também receberter tratamento característico na Psicologia Transpessoal:

Um dos pressupostos mais básicos da psicologia transpessoal é a afirmação de que há na pessoa mais do que a personalidade. A personalidade é o sentido de identidade separada, diferente e peculiar. A personalidade não passa de uma faceta do Eu – a identidade total – e, talvez, de uma faceta não-central. A própria palavra “transpessoal” significa “que ultrapassa ou transcende a personalidade”. (…) Essas idéias se afastam da concepção comumente aceita de que o sentido, a finalidade da vida, é o desenvolvimento da personalidade. (Fadiman, 1991, pp. 198-1990)

Nas teorias transpessoais são subvalorizados os aspectos históricos, biográficos, pessoais, e mesmo organísmicos da personalidade e do eu, ou talvez fosse melhor dizer eus, já que vários autores transpessoais rejeitam a idéia de que os indivíduos tenham um eu único, apontando para uma verdadeira multidão intrapsíquica de eus autônomos (subpersonalidades na expressão de Assagioli, 1976; ou multimentes, na expressão de Ornstein, 1986) com os quais, alternadamente, a consciência se identifica. Paralelamente, essas teorias fazem referência a uma instância unificadora transpessoal, o Eu, uma espécie de Eu Superior ou Total, também designado como Self Espiritual ou Transpessoal (Assagioli, 1976), ou Testemunha Transpessoal (Wilber, 1990), ou simplesmente Self (Si Mesmo), com S maiúsculo, na conhecida concepção de Jung que, ao contrário do que é muitas vezes entendido, não se refere apenas a um arquétipo psíquico coletivo, organizador das personalidades individuais, mas a um arquétipo psicóide, isto é, de natureza não  exclusivamente psíquica ou material, mas transcendente e irredutível a essas dimensões, e tendo vigência não só entre os homens mas no todo universal. Reitera-se aqui a crença transpessoal na concepção segundo a qual somos basicamente um com o cosmos, e não em situação de estranhamento com ele. (G. Murphy in Maslow, 1991, p. 143)

Podemos comparar, mais uma vez, a diferença  entre a perspectiva humanista, envolvida em questões de liberdade, escolha, autonomia, auto-realização e auto-afirmação; e a transpessoal que, sem negar a importância destes aspectos como pertencentes a uma etapa do desenvolvimento, enfatiza temáticas de morte e transcendência do eu, fusão cósmica, experiência unitiva, voluntária entrega e servidão, experiência mística, e desidentificação com a própria biografia e consciência pessoal. Fadiman e Frager (1979) distinguem os dois pontos de vista, afirmando ser um (o humanista) centrado no desenvolvimento do eu, ou self, individual; e o outro no crescimento transpessoal: a tendência de cada pessoa relacionar-se mais intimamente com algo maior do que o self individual ( p. 284 ), no caso, o Self Transpessoal. Um excelente retrato deste processo de desidentificação com o eu e reencontro com o Eu, mediado pela ruptura com o estado mental habitual e o acesso a um nível de consciência ampliada, é apresentado neste expressivo texto (escrito em 1912!) do poeta e cientista Edward Carpenter:

(…) chega-se, por fim, a uma região da consciência abaixo do pensamento ou oculta sob ele, e diferente do pensamento comum quanto à sua natureza e seu caráter – uma consciência de qualidade quase  universal e uma compreensão de um eu muito mais abrangente do que aquele com o qual estamos acostumados. E visto que a consciência ordinária, com a qual nos ocupamos na vida ordinária, está diante de todas as coisas que tem como base o pequeno eu local e é, de fato, auto-consciente no pequeno sentido local, segue-se que sair disso significa morrer para o eu ordinário e para o mundo ordinário.

Significa morrer num sentido ordinário mas, num outro sentido, significa despertar e descobrir que o “eu”, nosso eu mais íntimo e real, permeia o universo e todos os outros seres – que as montanhas e o mar e as estrelas são uma parte de nosso corpo e que nossa alma está em contato com a alma de todas as criaturas. (Apud Houston & Masters, 1993, p. 246)

Neste tópico, em que examinamos a importância que o modelo transpessoal de desenvolvimento psicológico atribui à passagem de uma identidade pessoal para uma transpessoal, ou do centrar-se no eu para o centrar-se no cosmo, pode ser referida uma outra tendência bastante característica e difundida entre os autores transpessoais, e que diz respeito à leitura que fazem do momento histórico atual. Ao passo que os autores humanistas tendem a denunciar a crise e a falência dos modelos tradicionais da civilização ocidental e a alinhar-se em favor de mudanças sócio-culturais condizentes com a revolução psicológica interior de valores e atitudes em que resulta, a nível individual, sua proposta de desenvolvimento do potencial humano, os transpessoais, uma vez mais, sem discordar, vão além. Entre estes, é freqüentemente expressa a opinião de que a atual crise não aponta apenas para uma transformação meramente histórica, política, social, cultural ou psicológica da humanidade, mas que estaríamos na verdade testemunhando e protagonizando um momento de salto qualitativo na evolução da espécie, uma mutação a nível filogenético, no limiar do nascimento de uma nova humanidade e de uma Nova Era. Já em 1901 esta foi a hipótese principal do grande precursor da Psicologia Transpessoal, R. M. Bucke, para quem, tendo a humanidade se tornado distinta dos animais pela aquisição da faculdade de Consciência de Si Mesmo, estaria agora manifestando, a nível de um crescente número de indivíduos, a tendência a passar, enquanto espécie, para uma nova etapa da evolução da consciência, desenvolvendo a faculdade de Consciência Cósmica:

… Se a nossa hipótese [de que a evolução humana não terminou] estiver correta, novas faculdades manifestar-se-ão, de quando em quando, na mente, do mesmo modo que novas faculdades manifestaram-se no passado. Admitindo-se tal hipótese, adotaremos que o que neste livro é chamado de Consciência Cósmica constitui uma dessas nascentes (…) faculdades. (Bucke, 1993, p. 78)

Merecem ainda breve referência algumas implicações que a visão transpessoal de homem traz, como verdadeira revolução, à compreensão não só da saúde ótima, mas também da doença psíquica e da própria – assim dita – normalidade do estado habitual.

A aceitação das necessidades espirituais como intrínsecas à natureza humana, leva à concepção de uma nova classe de patologias, consistentes na não satisfação dessas necessidades: as metapatologias (Maslow) ou as neuroses noogênicas (Frankl). Já para Pierre Weil (1989), uma das principais patologias que aflige o homem contemporâneo é a resistência ao transpessoal, na qual tudo o que lembre o irracional, o religioso e o oculto é imediatamente rejeitado (p. 36). Da mesma forma,  Assagioli (1976) observa que os mecanismos de repressão e resistência são utilizados em relação não só ao inconsciente inferior, descoberto por Freud, mas também em relação ao inconsciente  espiritual ou transpessoal por ele proposto. Para outros autores, como A. Weil, a própria vivência dos estados alterados e ampliados da consciência, ao invés de caracterizar um fenômeno excepcional ou distúrbios mentais, deve ser considerada como uma necessidade natural do ser humano, cuja não satisfação, esta sim, pode gerar patologias. Fadiman e Frager (1979) assim explicam esta proposição:

Weil (1972)  oferece evidência de que os assim chamados “estados alterados” são não só naturais como também necessários para o bem estar e a saúde continuada da pessoa. Ele acredita que a menos que tenhamos oportunidade de mudar nosso estado de consciência, podem desenvolver-se sintomas emocionais graves. (…). Da mesma forma que sabemos que há um impulso para experiência sexual, pode haver um impulso semelhante para a mudança de percepção. (pp. 168-169)

A compreensão de que a consciência inclui vários estados e faixas, às quais correspondem específicas apreensões da realidade, traz sérios questionamentos às definições habituais de psicose e normalidade:

A consideração de nosso estado comum a partir de um contexto ampliado gera algumas implicações inesperadas. Para o modelo tradicional, a psicose se define como um percepção distorcida da realidade que não reconhece a distorção. Do ponto de vista dos múltiplos estados, o nosso estado comum é assim definido por ser deficiente, por fornecer uma percepção distorcida da realidade e por não ser capaz de reconhecer essa distorção. Na verdade, todo estado de consciência é necessariamente limitado e só é real em termos relativos. Esse é o motivo por que, da perspectiva mais ampla, se pode definir a psicose como um apego a qualquer estado de consciência ou um aprisionamento nele.

Como cada estado de consciência revela seu próprio quadro da realidade, a realidade tal como a conhecemos (sendo esta a única maneira pela qual a conhecemos) é apenas relativamente real. Em outras palavras, a psicose é o apego a qualquer realidade. (Walsh & Vaughan, 1991, p. 61)

Na verdade, para a visão transpessoal, o fato dos chamados psicóticos estarem muitas vezes vivenciando alterações da consciência que os colocam em contato com outras faixas de percepção da realidade, leva à consideração de que estariam em uma posição, de certo modo privilegiada, de poder romper com as limitações da identificação exclusiva a uma faixa específica, despertando para o espectro ampliado da consciência total e para a possibilidade de nele transitar. Nesse sentido, certos episódios psicóticos, ao invés de sintomas de patologias ou deficiências, podem ser entendidos como crises da evolução ou episódios de emergência espiritual que, com a devida ajuda terapêutica, permitiriam ao indivíduo o acesso a uma identidade bem mais consciente e elevada que a da habitual normalidade. Com o propósito de ajudar pessoas a resolver semelhantes crises, psicólogos transpessoais como Stanislav e Cristina Grof têm organizado redes de apoio, batizadas redes de emergência espiritual, onde são atendidos indivíduos abalados pelos mais variados tipos de experiência transpessoal, as quais, para outros modelos, provavelmente indicariam a franca manifestação de surtos psicóticos (ou, pelo menos, histéricos): crise xamânica, despertar da Kundalini, episódios de consciência unitiva, experiências culminantes, crise de abertura psíquica, experiências com vidas passadas, comunicações com espíritos e chanelling, experiências de proximidade da morte, experiências de contatos próximos com OVNIs, estados de possessão, etc… (para uma descrição mais detalhada, vide Grof & Grof, orgs, 1992)

Por fim, nas concepções ampliadas de eu e de personalidade total (a identidade transpessoal), vamos encontrar outras posições características. Ao passo que para a visão humanista o desenvolvimento de uma identidade autônoma e independente é apontado como o objetivo do desenvolvimento da personalidade, a posição transpessoal é um tanto distinta. Sem deixar de reconhecer o desenvolvimento de uma personalidade autônoma, auto-consciente e responsável como uma etapa necessária e importante da evolução pessoal, a Psicologia Transpessoal considera que a identificação com qualquer tipo de eu pessoal, ou personalidade, em última instância caracteriza uma patologia: A identificação total com a própria personalidade pode ser evidência de patologia (Fadiman, 1991, p. 198). Daí ser freqüentemente apontada, como necessidade do desenvolvimento e evolução humana, a importância de vivências de morte e transcendência do eu (para um bom apanhado do tema vide Bertolucci, 1991, cap. IV), para que, mediante a desidentificação com os aspectos individuais e separados do todo, possa o homem transcender sua condição e reencontrar sua identidade transpessoal, como parte holográfica (imagem e semelhança) de um Eu maior, transpessoal e universal:

A verdadeira sanidade envolve, de uma ou de outra maneira, a dissolução do ego normal, desse falso eu completamente ajustado à nossa alienada realidade social (…) e por meio dessa morte, um renascimento, bem como o eventual restabelecimento de um novo tipo de funcionamento do ego, passando esse ego a servo, e não mais traidor, do Divino. (Laing, 1991, p. 78)

Métodos e Técnicas

A Psicologia Transpessoal, enquanto corrente, focaliza tópicos anteriormente negligenciados pela moderna psicologia científica, sendo os métodos e técnicas de trabalho e pesquisa utilizados pelas abordagens transpessoais  caracteristicamente marcados pela preocupação em enfocar, adequadamente acessar e, inclusive, provocar os estados alterados e ampliados de consciência, faixa  da experiência humana em que prioritariamente a Quarta Força se desenvolve com finalidades de investigação e/ou atuação terapêutica e educacional. Para tanto, lançam mão do mais variado leque de recursos, indo desde metodologias e técnicas bastante conhecidas e tradicionais, até inovações criativas e sui generis, sendo os pesquisadores, terapeutas e educadores transpessoais freqüentemente ecléticos e imaginativos em adaptar técnicas e procedimentos ao estudo e desenvolvimento das potencialidades e qualidades humanas implicadas no campo  privilegiado pela Quarta Força: a dimensão espiritual, ou transpessoal, do ser. Portanto, creio que o mais indicado para se classificar determinada investigação ou determinada proposta de trabalho como pertencente à Psicologia Transpessoal, não é tanto considerar os procedimentos utilizados quanto verificar se estes se dão dentro de uma perspectiva de reconhecimento e interesse em relação ao espectro ampliado da consciência. Sob esse prisma, vejamos, num retrato panorâmico, alguns dos métodos e técnicas que os psicólogos transpessoais têm mais freqüente e caracteristicamente utilizado.

O uso de substâncias psicodélicas, embora já há tempos em declínio nos meios científicos, marcou época, tendo estado fortemente associado, como vimos, ao próprio surgimento da Quarta Força. Quase todos os grandes nomes da pesquisa e atuação em Psicologia Transpessoal, inclusive os precursores, em algum momento de suas carreiras,  interessaram-se e foram influenciados pela utilização desse recurso como forma de investigação ou desenvolvimento das potencialidades da consciência, podendo o trabalho de Stanislav Grof (1983) ser citado como, talvez, o mais profícuo exemplo da utilização desta via para aquisição de conhecimento psicológico. Os ensaios de Aldous Huxley (s.d.) sobre suas experiências com mescalina, na década de 50, podem ser considerados verdadeiros clássicos da literatura transpessoal, contribuindo (juntamente com sua concepção de Filosofia Perene) para inscrevê-lo como um dos principais precursores e inspiradores do Movimento Transpessoal. Estudos pouco ortodoxos de modernas abordagens antropológicas (a chamada Antropologia Visionária, cujo expoente mais conhecido é Carlos Castaneda) enfocam o uso de substâncias alteradoras da consciência em culturas diversas, oferecendo insights e contribuições teóricas e metodológicas à moderna psicologia da consciência. Até pelo lado negativo o uso de drogas foi importante para o desenvolvimento da Psicologia Transpessoal, pois muitas formas de trabalho, como a respiração holotrópica de Grof, foram desenvolvidas a partir do desafio que era obter o mesmo efeito sem sua utilização. Ainda hoje, não obstante os aspectos polêmicos e as objeções legais que sua utilização envolve, os psicodélicos (designação que os transpessoais preferem à de alucinógenos) permanecem, no meio transpessoal, como um considerável recurso de alteração da consciência, com fins de pesquisa, tratamento, desenvolvimento e auto-exploração psíquica.

Os aparatos tecnológicos também tem sido freqüentemente utilizados, sendo alguns deles caracteristicamente associados à pesquisa transpessoal. As tecnologias de biofeedback e as especulações sobre os potenciais humanos que seu uso levantou, chegam por vezes a ser apontados como uma das mais fortes influências que pesquisas em áreas afins tiveram no surgimento da Psicologia Transpessoal. Os importantes subsídios que a moderna pesquisa do cérebro fornece para a compreensão dos processos de consciência alterada, tem levado à utilização, pela pesquisa transpessoal, de instrumentos tecnológicos muito mais sofisticados que o prosaico eletroencefalograma, que tivera importância tão marcante nos estudos pioneiros sobre os efeitos da meditação. Os tanques de privação sensorial, recurso de alteração da consciência alternativo ao uso de drogas, foram amplamente utilizados nas primeiras pesquisas (as do cientista e teórico transpessoal John Lilly, 1973, são, provavelmente, as mais famosas e importantes) e é um dos aparatos mais caracteristicamente associados à imagem da pesquisa transpessoal, chegando a inspirar o filme Altereted States (Viagens Alucinantes) de Ken Russel que, com certos exageros e distorções próprios de uma obra de ficção, divulgou entre o público leigo a moderna investigação da consciência ampliada. Atualmente, enquanto aparelhos modeladores da freqüência cerebral (as drean machines) já são popularizados comercialmente, e os tanques de privação sensorial são ressuscitados na onda do revival dos anos 60, os investigadores transpessoais partem para especulações futuristas sobre a utilização, com fins de ampliação e exploração da consciência, das nascentes tecnologias computadorizadas de Realidade Virtual, já chamadas de o LSD do Futuro pelo controverso psicólogo Thimothy Leary (En passant: após um longo, e em minha opinião imerecido, ostracismo, Leary está recentemente voltando a receber consideração dos círculos humanistas e transpessoais mais oficiais, tendo sua teoria dos Oito Circuitos Cerebrais obtido destaque na última edição da respeitada Revista de Psicologia Humanista).

Estando dentro das proposições do Movimento Transpessoal realizar uma ponte entre a moderna Ciência e a sabedoria das tradições espirituais, tem sido uma acentuada tendência buscar nestas não só  uma das mais ricas fontes de material de estudo (as experiências religiosas), mas também inesgotável inspiração teórica e metodológica para o trabalho com a consciência expandida. Em sua busca de instrumentação, os psicólogos transpessoais têm realizado investigações que por vezes chegam às raias da arqueologia antropológica, estudando variadas formas de oração, meditação, yoga, exercícios espirituais, ritualísticas, mitologias e simbologias tradicionais, práticas xamânicas e caminhos iniciáticos, com as quais enriquecem, na teoria e na prática, seus procedimentos de trabalho. Aliás, o caminho de aproximação entre a Psicologia e a Tradição não é percorrido em mão única, e modernos líderes espirituais, divulgadores de doutrinas milenares em adaptações dirigidas ao público ocidental, expressam-se em atualizada linguagem psicológica, chegando alguns a formular verdadeiras psicologias, no sentido mais moderno do termo. Variadas formas desta aproximação podem ser exemplificadas em parte da obra de espiritualistas como Gurdjieff e Ouspensky, Rudolf Steiner, Alice Bayley, Daisetz Suzuki, Krishnamurti, Rajeeneesh (ou Osho), e muitos outros. Um caso curioso é o do Psicólogo Richard Alpert, que atualmente é o Iogue Ram Dass, ficando difícil decidir (como se isto fosse importante!) se está indo ou vindo  no caminho que liga a Tradição à Psicologia Transpessoal. Não é, enfim, realmente possível, neste espaço, traçar um esboço, por resumido que seja, das diversas versões, nuances e caminhos que esta tendência toma nas influências recebidas pelas diversas abordagens, sobretudo de psicoterapia, das psicologias transpessoais.

Mesmo métodos e técnicas tradicionalmente associados às anteriores Forças da Psicologia encontram larga utilização nos meios transpessoais, a partir de redefinições ampliadoras dos conceitos teóricos em que se fundamentam. Do Behaviorismo, destaca-se o uso que tem sido feito dos conceitos e técnicas de modelagem e descondicionamento. Da Psicanálise, enquanto do arcabouço conceitual são retiradas inesperadas resignificações de conceitos como identificação, projeção e resistência, no campo metodológico tem sido adaptadas técnicas regressivas, aí incluído (mas não restrito) todo um renovado interesse e desenvolvimento em hipnose clínica. Ainda a propósito da Psicanálise, embora a visão freudiana da natureza humana seja quase a antítese do modelo transpessoal de homem, em minha opinião Freud foi quase um precursor de certos enfoques característicos da Psicologia Transpessoal, propondo a alteração da consciência como instrumento de trabalho (em que outra coisa senão nisso consiste a atenção flutuante e a associação livre?), e escolhendo como campo privilegiado (o Caminho Real) a investigação dos sonhos que, afinal, são um estado alterado de consciência. E por falar em sonhos, a variedade de técnicas utilizadas nas abordagens transpessoais, e que receberam em seu desenvolvimento fontes de inspiração que vêm desde práticas imemoriais até a mais recente pesquisa do sono e sonho, inclui procedimentos e categorias com títulos como sonhos criativos, sonhos lúcidos, incubação de sonhos, sonhos de cura, sonhoterapia, sonhos coletivos, sonhar por terceiros, sonho acordado, sonho dirigido, sonhos diagnósticos, etc…Quanto às contribuições recebidas da Psicologia Humanista, à qual a Psicologia Transpessoal tão estreitamente se liga, incluem-se adaptações de métodos e técnicas corporais, grupais, sensoriais, fenomenológicas, psicodramáticas e de conscientização, sem contar que todo um capítulo poderia ser escrito a respeito da utilização que os transpessoais tem feito de técnicas de trabalho com imagens, retomando e ampliando, em muitos aspectos, as propostas de destacadas abordagens humanistas. E ainda com respeito à Psicologia Humanista, é importante ressaltar que as ligações íntimas e a não contradição intrínseca entre as  abordagens da Terceira e Quarta Forças, permitem que determinadas abordagens sejam consideradas como sendo, a uma só vez, humanistas e transpessoais, muitas sendo assim declaradas por proposta explícita de seus criadores, como é o caso, para citar os exemplos mais famosos, da Logoterapia de Viktor Frankl (onde predomina certa inclinação existencial-humanista) e da Psicossíntese de Roberto Assagioli (com franca inclinação transpessoal). Já outras abordagens humanistas têm, após a morte de seus criadores, encontrado discípulos que nelas descobrem certos potenciais ou tendências transpessoais (Bertollucci, 1991, aponta indícios nesse sentido já nas formulações primeiras do Psicodrama de Moreno), ou que lhes desenvolvem extensões com características transpessoais (Pierrakos, por exemplo, faz algo assim a partir da obra de Reich), ou ainda criam metodologias transpessoais fortemente inspiradas em sua escola de formação (incluiria aqui o Cosmodrama de Pierre Weil e, talvez como um esboço, a Síntese Transacional de Roberto Crema, desenvolvidas na Universidade Holística Internacional de Brasília, e respectivamente inspiradas no Psicodrama e na Análise Transacional). Minha própria pesquisa de pós-graduação visa a integração da perspectiva transpessoal à  Abordagem Centrada na Pessoa, de Carl Rogers.

Cabe aqui um esclarecimento sobre a natureza das psicoterapias transpessoais para que se compreenda porque elas não excluem que se utilize, mesmo sem adaptações, técnicas de outras abordagens. É que, dentro da perspectiva da aceitação de vários estágios de desenvolvimento antes do crescimento psicológico voltar-se à busca do transpessoal, assim como dada a aceitação do amplo espectro de faixas e estados de consciência que vão desde o infra-humano até o transpessoal, passando pelas faixas pessoais e biográficas em que se desenrola a maior parte do drama de nossas existências, a Psicoterapia Transpessoal admite a validade da maioria das técnicas psicológicas, desde que se restrinjam à faixa de consciência e ao estágio de desenvolvimento a que correspondem. Wilber (1990) demonstrou este ponto de vista de forma bastante contundente e extensa em sua teoria do Espectro da Consciência, e a seguinte colocação de Grof  (1988) define bem a questão:

Um terapeuta transpessoal lida com os problemas que emergem durante o processo terapêutico, incluindo acontecimentos mundanos, dados biográficos e problemas existenciais. O que realmente define a orientação transpessoal é um modelo da psiquê humana que reconhece a importância das dimensões espirituais ou cósmicas, e o potencial para evolução da consciência. O terapeuta transpessoal mantém-se cônscio do espectro total e quer sempre acompanhar o cliente a novos campos experiências, não importando qual o nível de consciência que o processo esteja focalizando.    (p. 145)

Dadas as concepções abertas e arrojadas de Ciência, Psicologia, realidade e consciência que adota, assim como dadas as características inusuais de seu campo privilegiado de estudo e atuação, a Psicologia Transpessoal tem abrigado, ou pelo menos convivido, com inovações técnicas e metodológicas tão extravagantes, inusitadas, heterodoxas e controversas que, por vezes, chegam a comprometer a respeitabilidade de todo o movimento frente à Comunidade Psi. A inefabilidade de certas experiências transpessoais e as dificuldades da comunicação inter-estados de consciência têm favorecido considerável tendência  para utilização de métodos de auto-experimentação, em que o investigador é também o sujeito do experimento, e propiciado situações em que a auto-indução de estados alterados é usada pelo profissional como forma de acesso ou atuação em sua relação com os clientes ou sujeitos de estudo. A farta ocorrência de fenômenos paranormais em estados de consciência alterada têm levado os psicólogos transpessoais não só a uma aproximação da Parapsicologia e seus métodos, como autorizado a utilização, com fins terapêuticos ou de investigação, dos poderes psíquicos do próprio pesquisador ou profissional de ajuda. A aceitação da trans-corporeidade e da trans-humanidade da consciência tem permitido o desenvolvimento de abordagens e metodologias de trabalho que adotam concepções reencarnacionistas, projeções extra-corpóreas da consciência, comunicação com pessoas já falecidas, ou mesmo com consciências não humanas, inclusive inteligências extra-terrestres ou de outras dimensões  não conhecidas da realidade. Autorizado pelos conceitos de sincronicidade e interconexão trans-espaço-temporal entre eventos, há significativo interesse em investigar, ou utilizar como técnica coadjuvante de atuação, a Astrologia e os chamados métodos mânticos, como o I Ching e o Tarô. O compromisso com uma visão holística de Ciência e ser humano, compreendendo este como pluridimensionalmente integrado e aquela como transdisciplinarmente inclusiva, tem levado muitos profissionais identificados com a perspectiva transpessoal a se utilizarem das chamadas terapias alternativas ou holísticas, que incluem desde o uso dos métodos e técnicas de milenares e tradicionais medicinas orientais, até o uso de recentes e pouco experimentadas criações da medicina natural ou da homeopatia. Ao falar aqui de algumas dessas tendências especialmente polêmicas, desejo frisar minha posição de ser contrário à exclusão apriorística e preconceituosa de qualquer abordagem nova, especialmente porque considero que a abertura ao novo é a principal alavanca do progresso científico. Se abusos existem, e certamente os há naquelas adesões modísticas ou comercialmente motivadas, é o ceticismo e a sobriedade do rigor científico, corolário da abertura ao inusitado, e não o preconceito, que devem ser utilizados para combatê-los.

Enfim, no tópico de métodos e técnicas, verifica-se que, se por um lado a Psicologia Transpessoal não se identifica e caracteriza consistentemente em determinados e específicos procedimentos de trabalho e pesquisa, por outro, seu arsenal nesse campo é talvez mais amplo e diversificado que o de qualquer escola ou corrente anterior, mesmo porque costuma adotar inclusivamente o que por estas foi desenvolvido.

RESUMO

O artigo apresenta, numa visão panorâmica e sintética, as principais tendências características dos dois movimentos ou correntes da Psicologia contemporânea que prioritariamente enfocam o estudo e o desenvolvimento das potencialidades humanas: a corrente humanista e a corrente transpessoal. Intituladas por seus articuladores como a Psicologia Humanista e a Psicologia Transpessoal, tais correntes são apresentadas, respectivamente, como a Terceira e a Quarta Forças da Psicologia, e propostas em contraposição às duas principais correntes que predominavam até a década de 50, no caso, o Behaviorismo e a Psicanálise.

Sem se ater a distinguir ou discriminar as posições e contribuições mais particulares, ou as diferenças, entre os principais autores e escolas que aderem às correntes examinadas, a caracterização aqui proposta enfoca as tendências, elementos e pontos de vista mais gerais, consensuais e típicos que configuram a Psicologia Humanista e a Psicologia Transpessoal enquanto movimentos, ou correntes, congregadores de investigadores, teóricos e praticantes da moderna ciência psicológica. Com este objetivo, após uma breve apresentação dos aspectos históricos e contextuais a que o nascimento de cada um dos movimentos esteve associado, a Psicologia Humanista e a Psicologia Transpessoal são examinadas e descritas em termos de suas posições e propostas características em quatro tópicos, ou dimensões, centrais: a Temática Privilegiada, a Visão de Homem, o modelo de Ciência, e os Métodos e Técnicas.

(1) É importante ressaltar que a Fenomenologia, numa versão simplificada (entendida como descrição ingênua da experiência vivida) e um tanto desvinculada de suas raízes filosóficas mais elaboradas, fora trazida anteriormente aos Estados Unidos pelos psicólogos gestaltistas alemães e psiquiatras da escola jasperiana, e já era, havia muito, conhecida e utilizada pelos psicólogos americanos, quer como método auxiliar de coleta de dados, quer como a fundamentação principal de elaborações teóricas.

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