Mediação Escolar : Uma metodologia de aprendizado em administração de conflito.

Maria do Céu Lamarão Battaglia
* Texto escrito em 2003.

A mediação é um processo não adversarial de resolução de conflitos.Em decorrência do aumento crescente de litigiosidade, que dia a dia vem sobrecarregando a justiça e da grande demora por parte da mesma em solucionar os casos, a mediação como alternativa aos processos judiciais, vem ganhando terreno como um recurso alternativo a resolução de disputas.

Devido a este mesmo fato, com um objetivo profilático, amplia-se o campo de atuação da mediação para a educação. Considerando a escola como instituição que objetiva a educação cultural e social do homem, a mediação escolar se coloca como um convite à aprendizagem e ao aperfeiçoamento da habilidade de cada um na negociação e resolução de conflito, baseada no modelo “ganha-ganha”, onde todas as partes envolvidas na questão saem vitoriosas e são contempladas nas resoluções tomadas.

Por que os métodos utilizados anteriormente não satisfazem mais na atualidade?

Algumas mudanças importantes ocorreram nas relações interpessoais e hierárquicas nos últimos 30 anos. Por um longo período de tempo, as relações se deram no sentido da força, submissão, medo e obediência. Os conflitos eram administrados tomando-se como referência pessoas critério que possuíam o comando ou o poder de decisão graças à sua posição hierárquica. Os fatos eram apresentados a elas para que fossem julgados e uma decisão determinada. Este lugar poderia ser ocupado por um chefe de família, uma pessoa mais velha, um professor ou assim por diante. Devido à maior rigidez moral e à clara dicotomia entre o bem e o mal, os norteadores evidenciavam o certo e o errado de tal forma que dificilmente podiam ser contestados. Desta forma, viemos de uma cultura de litígio, onde em qualquer disputa existia um ganhador e um perdedor. A tarefa do encarregado de “julgar” a causa era apenas a de, por meio do bom senso, da moral e dos bons costumes, determinar quem estaria com a razão.

O cenário que se apresenta hoje em relação ao conflito sofreu fortes alterações. A verticalidade das hierarquias se estreitou. Os conceitos de certo e errado se relativizaram. A tendência ao individualismo e a ilusão da autonomia levaram o homem às disputas que objetivam defender apenas os próprios interesses. Se faz necessário hoje então a utilização de uma metodologia de resolução de conflito que convide cada parte envolvida  a participar e a tomar para si sua cota de responsabilidade na decisão selada. Diferente da posição anterior, atualmente a busca remete ao consenso.

O primeiro passo a ser dado diz respeito à redefinição de conflito. Tomando como exemplo a cultura oriental, podemos observar que o oriental não bloqueia a energia do outro, como ocorre em um julgamento onde cada um defende sua posição. Ele aproveita a energia do outro para conseguir o que quer. É exatamente esta inclusão do outro no projeto, esta consideração do outro, levando em conta suas necessidades para satisfazer as próprias, que denota a diferença primordial de postura frente à nossa cultura. Enquanto os orientais submergem na experiência para compreender e vivem o processo, nós nos distanciamos para melhor observar de fora. Para o oriental, passar do sim ao não, não  representa nenhum problema. Para nós, significa retratação, contradição, fraqueza e insegurança. Talvez seja este o maior impasse que o mediador possa se defrontar no papel de facilitador do processo.

Desta forma, ressaltamos que redefinir a noção de conflito implica no reconhecimento do mesmo como uma parte da vida que pode ser utilizada como oportunidade de aprendizagem e crescimento pessoal. Considerando-se que o conflito é inevitável, a aprendizagem da habilidade em resolvê-los torna-se tão educativa e essencial quanto a aprendizagem da matemática, história, geografia, etc., sendo que, na maioria das ocasiões, as próprias crianças podem resolver seus conflitos de maneira tão adequada quanto com o auxílio dos adultos.

Isso nos direciona a construir um programa dirigido à área da educação que objetive implementar habilidades em gerenciamento de conflito. Estes programas tem por objetivo desenvolver alguns pontos chaves:

a)Desenvolver uma comunidade na qual os alunos desejem e sejam capazes de uma comunicação aberta.

b)Ajudar os alunos a desenvolverem uma compreensão melhor da natureza dos sentimentos, capacidades e possibilidades humanas.

c)Ajudar os alunos a compartilharem seus sentimentos e serem conscientes de suas próprias qualidades e dificuldades.

d)Ajudar cada aluno a desenvolver autoconfiança em suas próprias habilidades.

e)Ajudar o aluno a pensar criativamente sobre os problemas e começar a prevenir e solucionar conflitos.

Desta forma, o currículo voltado para resolução de conflito, já bastante utilizado em diferentes países,  tem como objetivo, por um lado oferecer aos alunos uma compreensão teórica sobre conflito e sobre os procedimentos para resolvê-lo e por outro, a experiência prática necessária para converterem-se em adultos flexíveis, práticos e efetivos. Sobretudo, criar um clima escolar de não violência em sua totalidade cujo marco seja o ensino e o favorecimento de meios pacíficos na resolução de conflitos.

Não podemos esquecer que um mau gerenciamento de conflito pode levar à incompreensão, ao ódio, à perda da amizade, à agressão e à violência.

Currículo

No currículo dedicado à capacitação em mediação são trabalhadas através de jogos de papéis e conflitos simulados, algumas habilidades como: reconhecimento, expressão e respeito às emoções, controle da impulsividade, manejo da raiva, escuta ativa, comunicação eficaz e técnicas de resolução de problemas.

Durante as aulas curriculares exercita-se:

– Cooperação (confiar, ajudar e compartilhar com os demais em trabalhos conjuntos)

– Comunicação (observar cuidadosamente, comunicar-se com precisão e escutar sensivelmente)

– Apreço pela diversidade (apreciar e respeitar as diferenças, entender o preconceito e como ele funciona)

– Expressão positiva das emoções (expressar sentimentos de raiva e frustração de forma não agressiva e não destrutiva, autocontrole)

– Resolução de conflitos (aprimorar a habilidade em responder criativamente aos conflitos no contexto de uma comunidade humanitária e de apoio)

Numa situação cotidiana de sala de aula, que tenha como objetivo o aprendizado em gerenciamento de conflito, torna-se importante que a maioria das situações de aprendizagem se estruturem de forma cooperativa, onde os estudantes trabalhem em pequenos grupos, nos quais tenham a responsabilidade de aprender a matéria especificada. Além disso, compete a eles que o resto dos membros do grupo também aprenda.

Os professores podem utilizar os conflitos nas lições acadêmicas para promover a motivação e um nível maior de racionalidade que conduza a melhores resultados acadêmicos. Esta experiência leva os estudantes a experimentarem as conseqüências positivas do conflito e aumentarem a atitude positiva em relação ao mesmo. As controvérsias se resolvem discutindo-se as vantagens e desvantagens de cada posição. O objetivo das discussões é o de sintetizar uma solução nova através do processo criativo de resolução de problemas.

Desta forma e de muitas outras, podemos exercitar as habilidades necessárias à competência em solucionar conflitos de maneira produtiva e construtiva nos mais diferentes momentos da vida escolar. Esta abordagem fundamenta-se em um marco teórico Compreensivo Humanista Integrativo (CHI) que nos leva a formular questões como: “Por que ocorrem estas condutas?”, “Qual a lógica da aparição destas atitudes?”, “Seriam as fontes do conflito endógenas ou exógenas?”, “Que faz a escola com estes fatores potencializadores de conflito?”…

Hipóteses a serem exploradas

Diversos fatores podem estar contribuindo para a existência do conflito, isoladamente ou de forma combinada. Examinaremos agora alguns dos fatores que ocorrem com maior freqüência.

1- Sinais de mal estar:

Pode estar ocorrendo alguma forma de mal estar que afete diretamente o aluno. Sua origem pode se localizar no âmbito social, socioeconômico, cultural, familiar ou mesmo na própria escola. Além disso estes diferentes fatores podem potencializar-se entre si.

2- Multicausalidade:

As causas do conflito se subdividem entre fatores exógenos, que se localizam fora da escola, ou fatores endógenos, que se localizam dentro da escola.

Exógenos:

a- ambiente socioeconômico

b- necessidade básica insatisfeita

c- ambiente sociocultural

d- família

e- baixa autoestima

Endógenos:

a- clima institucional

b- atitudes dominantes nas autoridades

c- grupo de colegas

3- Grupo de colegas:

Neste caso, a observação e o cuidado se voltam ao grau e à qualidade da vinculação.

Num grupo pouco saudável, ocorre a presença de situações de discriminação, chantagem afetiva, elitismo, autoritarismo, agressão e competição. Já num grupo saudável, encontraremos uma maior facilidade de comunicação, maior aceitação entre as partes, reconhecimento mútuo e estímulo ao crescimento de seus membros. Atitudes estas que previnem situações de conflito ou oferecem uma maior fluidez na resolução dos mesmos.

Conclusão

Os avanços da atualidade trazem algumas conseqüências diretas em nossas vidas. Umas boas outras não tão benéficas. Entretanto é indubitável o fato de que não podemos parar o tempo nem o desenvolvimento da ciência. Devemos sim, construir em paralelo novas maneiras de lidar melhor com as situações inusitadas que se apresentam. Juntos certamente descobriremos e construiremos ferramentas mais completas e apropriadas, principalmente porque juntos poderemos exercitar o que há de mais essencial ao bem estar humano em nossas relações: as atitudes de empatia, congruência e aceitação positiva incondicional.

Para cada nova descoberta científica, nova invenção tecnológica, nova transformação cultural, inventaremos uma nova maneira também de superação e aprimoramento pessoal.

Desta forma, acreditamos que, a mediação é na verdade uma nova maneira de recriar um espaço de aprendizagem de antigos valores. Valores essenciais ao bem estar, felicidade e harmonia do Homem.