Empatia.

Rodrigo Rezende

Carl R. Rogers é fundador da Abordagem Centrada na Pessoa e foi defensor da tese de que a empatia proporcionada pelo psicoterapeuta ao cliente é uma das maneiras mais poderosas, porem de natureza sutil, para promover mudanças de personalidade e, consequentemente, comportamentais. Primeiramente, Rogers descobriu, em sua prática como psicoterapeuta, que o ouvir atentamente já era um fator isolado de ajuda significativa ao cliente. Compreendeu também que quando o psicoterapeuta dizia ao cliente quais sentimentos e emoções percebia nele, a efetividade da terapia aumentava. A esse procedimento chamou de reflexão de sentimento e, juntamente com seus alunos, descobriu que ficar atento aos sentimentos do cliente e refleti-los podia transformar uma conversa superficial em autoanalise profunda realizada pelo próprio cliente. Entretanto, posteriormente, Rogers descobriu que não era nem a escuta e nem a reflexão de sentimentos que ajudavam o cliente, mas era a empatia nelas embutidas. Ele, então, protestou que a reflexão de sentimento não era uma técnica ou um tipo de terapia, mas sim uma particularidade que poderia estar englobada em algo maior como uma relação interpessoal empática com o cliente. Ele compreendeu que não é exatamente a reflexão de sentimentos que proporciona ajuda aos clientes, mas sim a empatia que deve estar embutida nesse tipo de reflexão. A reflexão de sentimentos é uma forma auxiliar de demonstrar empatia e somente ajuda o cliente quando há empatia autentica do psicoterapeuta em relação a seu cliente.

O que é essa empatia e como promove ajuda no cliente? Vou me arriscar em uma tentativa de resposta simplificada para o que pode ser isso: É um fenômeno humano de consideração por outro ser humano quando um busca compreender o outro a partir do ponto de vista do outro, aceitando seus comportamentos sem críticas e juízo de valor e ainda buscar vivenciar e compreender seus sentimentos e emoções como se fosse ele. Para responder a segunda parte da pergunta, vamos considerar antes o que Rogers chamou de fluxo psico-fisiológico. Isto seria o conjunto em movimento das sensações corpóreas e vivências psíquicas que experienciamos continuamente em todos os momentos da vida. Na maioria do tempo, não temos consciência completa como este fluxo de sensações e vivencias está correndo dentro de nós e, consequentemente, não encontramos significações precisas para as sensações. Sendo assim, na psicoterapia, a empatia permite ao psicoterapeuta aproximar tanto do seu cliente a ponto de ele (o psicoterapeuta) tentar encontrar ou descobrir significações que seu cliente aceite como autenticamente suas. Quando significados são encontrados para os fluxos sensoriais e vivenciais, estes evoluem e se aproximam da consciência, o que permite compreensão e aceitação e, a partir de então, mudanças de personalidade e, consequentemente, comportamentais poderão ocorrer. Esse processo se dá no cliente pela desalienção em relação a sentimentos reprimidos, pela significação consciente de vivências, pela aceitação e valorização de si mesmo assim como se é, pelo não julgamento, aceitação incondicional e confirmação da existência de identidade pelo outro (no caso, o psicoterapeuta). O cliente se vê, então, diante de aspectos pessoais que antes não eram reconhecidos como sendo dele mesmo. Esses aspectos são agora aceitos pelo incentivo do psicoterapeuta que os aceita com naturalidade. A incorporação desses aspectos leva forçosamente o cliente a reelaborar seu autoconceito. Uma vez que o conceito de si é atualizado, a personalidade se reconfigura e os comportamentos se modificam para adequar com a personalidade reconfigurada.

Fica então evidente que a empatia ocupa um papel chave no processo de mudança no cliente em terapia. É a empatia que possibilita ao terapeuta buscar e, eventualmente, encontrar significações expressivas para o cliente. É exatamente a partir desse ponto que se abre a possibilidade para a evolução da condição do cliente. Sem a empatia o psicoterapeuta não seria capaz de ter sentimentos próximos aos do cliente, poderia apenas tentar compreender o cliente através da intelectualização de sua condição e por teorias psicológicas. Entretanto, essa compreensão, mesmo que muito acertada e suportada por teorias psicológicas, afastariam o cliente de um processo de mudança, na medida em que o mesmo não acataria algo que não pode ser reconhecido e compreendido por si mesmo. De outra forma, a empatia pode desbloquear vivências que, quando são experimentadas ao nível visceral e corretamente simbolizadas e nomeadas, provem mudanças na personalidade e, consequentemente, nos comportamentos. Assim, concluímos que a empatia tem um papel fundamental na abertura do cliente para descobertas internas e mudanças e, portanto, é essencial, pois, como uma chave, abre uma fechadura no processo terapêutico.