ACP, uma forma muito especial de estar junto.

Rodrigo Rezende

Quando estamos juntos em duplas de amigos, casal homo ou hetero afetivo, psicoterapeuta e cliente ou qualquer combinação de agrupamento de pessoas, existe sempre uma tendência à valorização, supremacia ou dominação de uns em relação aos outros. Esse fenômeno é facilmente observado em qualquer agrupamento humano e de mamíferos na natureza, além de no ambiente domestico. Visivelmente, é assim que se comportam os leões, leões marinhos, macacos, elefantes, cachorros, gatos e humanos. Inclusive, Charles Darwin (autor de A Origem das Espécies, 1859) e outros estudiosos da biologia apontam que a competição agressiva dos machos disputando fêmeas e o maior interesse das fêmeas por machos que exibem características de poder ou beleza é intrínseco ao processo de Seleção Natural de fortalecimento biológico das espécies.

Então, essa tendência à valorização, supremacia ou dominação é natural e normal, tanto para animais quanto para humanos. A história da humanidade é marcada, desde sempre e certamente para sempre, por lutas e guerras na tentativa de certos grupos de impor seus interesses, de dominar outros grupos e de incorporar para formar grupos maiores. Foi assim que se formaram os países que conhecemos hoje em dia. Essa tendência tem vários graus, desde a escravidão e outras formas de impor interesse e subjugar até o controle sutil, quase não perceptível, e é um fenômeno extremamente potente na natureza de várias sociedades do reino animal.

Eu diria que, extraordinariamente, a Abordagem Centrada na Pessoa (ACP) busca ir em direção contrária a essa tendência natural e potente: a dominação. Talvez a ACP raramente tenha êxito completo, mas, nessa tentativa, já se cria uma configuração entre os humanos muito diferente das configurações que vários agrupamentos humanos normalmente estabelecem. A configuração humana que a ACP estimula talvez seja algo próximo, em teoria, do comunismo utópico ou perfeito: uma configuração em que ninguém é mais importante que ninguém e todos são respeitados pelo que são capazes de oferecer e recebem de acordo com suas necessidades.

Embora, em vários momentos da história humana, houve movimentos políticos que defendiam configurações sociais com ideais igualitários, parece que aquela velha natural e potente tendência prevaleceu. Entretanto, nos Grupos de Encontro dos fóruns e conferências da ACP mundo a fora, momentos de igualdade, respeito e apreciação mútua são criados, e os participantes gozam de um estado extraordinário de êxtase de amor universal entre si e entre todos. Vejo que alguns, incluindo eu mesmo, participam desses encontros frequentemente buscando uma espécie de refúgio da vida competitiva e estressante normal do dia a dia.

Entendo também que, no atendimento psicoterápico, seja ele individual, em casal, familiar ou em grupo, o bom profissional da ACP atue de forma a estimular a criação de um clima em que haja espaço e oportunidade para relacionamentos que respeitem a opinião e posição do outro e diminuam a tendência de dominação. Assim, à medida que a psicoterapia estimula a criação desse clima ou configuração relacional entre as pessoas, sentimentos favoráveis à compreensão, aceitação e insights construtivos são favorecidos, e é dessa forma que a psicoterapia da ACP atua.

Sendo assim, estar junto de uma forma especial, sem que uns tentem impor aos outros seus interesses, ou seja, sem tentar dominar, mas contrariamente, todos respeitando as diferenças e até oposições, é uma das principais essências que caracteriza a Abordagem Centrada na Pessoa.