A não direção na ACP.

Rodrigo Rezende

A Abordagem Centrada na Pessoa (ACP) tem sido algumas vezes criticada por englobar um modo de fazer psicoterapia que aparentemente é sem direção. Pois, desse modo, a psicoterapia centrada na pessoa pareceria ser algo descuidado, descompromissado, sem critérios de qualquer ordem social, moral e inclusive de ciência psicológica e, assim, sem valor. A denominação de psicoterapia não-diretiva surgiu com os trabalhos iniciais de Carl Rogers para diferenciá-los em oposição aos modos mais usuais de fazer psicoterapia à base de perguntas, interpretações e aconselhamento. Entretanto essa denominação, que foi devida ao estereótipo comportamental do psicoterapeuta, pouco define e esclarece o que sustenta esse modo de psicoterapia.

Para a ACP, a psicoterapia é um processo de auto-saneamento e liberação interna de angústias e confusões que geram inseguranças e ou sofrimentos que, por sua vez, dificultam o funcionamento adequado e auto-determinado da pessoa. Conduzir o cliente na direção que o psicoterapeuta entende por ser a mais adequada seria danoso na medida diminui no cliente a confiança no seu próprio julgamento, realimentando, assim, um ciclo vicioso de insegurança e dependência. Então, contrariamente, o psicoterapeuta da ACP busca promover no cliente a sensação de competência para avaliar, julgar e decidir suas questões por si próprio. Nesse processo de promoção é fundamental, na interação com o cliente, que o psicoterapeuta busque diminuir ou abster-se de julgar a qualidade e o valor do que o cliente apresenta no seu discurso. Por outro lado e comitantemente, este psicoterapeuta procura maximizar a sua presença, junto ao seu cliente, acompanhando-o vivencialmente nas suas experiências na medida em que se apresentam. Assim, o psicoterapeuta colabora como um facilitador para que a Tendência Atualizante, a tendência natural e universal dos seres para a sobrevivência, superação e desenvolvimento concebida por Rogers, prevaleça no sentido do melhor tratamento dos problemas e dificuldades em busca do bem estar. Então, essa forma de atuar pelo psicoterapeuta da ACP que abstém de dar opiniões, conselhos e interpretações, apesar da aparência de ter poucas intervenções, pode ser capaz de provocar forças internas e naturais nos clientes, de grande poder.

A forma de atuar do psicoterapeuta da ACP é na verdade uma forma cuidadosa, meticulosa e criteriosa de atuar no sentido de facilitar e promover a Tendência Atualizante para que esta atue em favor deste cliente. Não se trata então de deixar de atuar ou de não haver direção, mas de atuar de uma forma sutil e delicada que poderá ser mais efetiva e significativa ao cliente do que qualquer outra. É, de certa forma, um modo revolucionário e difícil de interagir com o outro, pois normalmente e naturalmente, no contato, busca-se uma posição de maior poder, opinando para demonstrar sabedoria e razão. Abrir mão da razão, do poder e do controle não é fácil, e só é possível quando se coloca o interesse do outro acima de tudo, acima do interesse natural de ter a razão.

Concluindo, o psicoterapeuta Centrado na Pessoa não deixa a sessão “rolar ao léo”, mas sacrifica a própria razão para que o seu cliente possa criar, fortalecer e se reorientar pela razão dele. Pois esse psicoterapeuta acredita que todo ser humano tem em potencial uma força natural de solução e desenvolvimento capaz de produzir os melhores resultados sob medida a este ser, e que não pode ser encontrada externamente. Além do mais, todos devem ter o direito de fazer as próprias apostas na vida, pois, no final das contas, ninguém vai querer pagar pelos riscos dos outros.