Tornar-se pessoa, hoje!

Emanuelle Coelho Silva
*Texto escrito em fevereiro de 2006.

Vivemos num mundo onde a máxima é aquela expressa nos outdoors, nas grandes propagandas veiculadas pela televisão e mesmo pela internet: “seja magro”, “seja forte”, “lute pelos seus ideais”, “faça inglês”, “seja o homem do século XXI” seja a qualquer custo!

Mas o que nos custa este SER contemporâneo, este novo ser? Esses slogans que nos remetemos e nos intimamos a seguir, não são “obrigatoriedades” para homem atual, mas já vêem de outras épocas humanas, onde outros modelos eram requeridos, mas a máxima era a mesma SEJA, mas seja aquele que eu lhe digo ser, aquele que atende o meu ser. Talvez possamos até nos remeter a Nietzsche, que em seu célebre trabalho “Assim falou Zaratustra”, já nos dizia tão bem sobre esse “super-homem” a que estamos ligados.

Mas o que nos torna seres humanos realmente? O que nos torna pessoa hoje? Como? O que? Quando? Quanto? A que custo?

Tornar-se pessoa não é tarefa simples, não é apenas abdicar das ofertas hi-tech do século XXI, nem tão pouco fingir que elas não existem. Tornar-se pessoa passa pelo íntimo do ser, é preciso mergulhar em si mesmo, verificar e presenciar o caos do EU para depois lançar-se fora e unir-se ao que foi quebrado. Novamente, pensando nas palavras de Nietzsche pra ilustrar, “É preciso ter um caos dentro de si para dar à luz uma estrela cintilante”.

Nesta tentativa de tornar-se pessoa, por vezes nos perdemos em rótulos, estigmas e exigências de uma sociedade marcada pela estética e pela aparência. A essência é perdida e por vezes nos vemos tão perdidos quanto. Nessa longa caminhada, Nietzsche, em “Assim Falou Zaratustra” retrata o sofrimento, o caos e a luta interna (e até mesmo externa) que desbravamos para alcançar a nossa própria verdade, nossa essência, o EU enfim. É preciso ressaltar que a verdade aqui, é a verdade interna, é a verdade de cada um, é o eu-pessoa.

O que é a existência senão a luta por descobrir o que somos e para onde iremos, em nossa longa jornada? De que certezas têm o homem senão de seu próprio fim? Que mudanças este homem pode procurar, ou mesmo se permitir para encontrar essa pessoa que está dentro dela, pedindo para sair?

Ser humano é demasiado complexo e por vezes penoso. Mas é sempre a partir dessas provações (e até provocações), que as verdades, individuais são transmutadas, mudadas e moldadas, levando a plenitude do EU, a plenitude do ser e a volta do tornar-se pessoa. Conhecer-se, compreender-se, aceitar-se e novamente conhecer-se é o que realmente nos torna pessoa.

Esse caminho que é percorrido em busca de tornar-se realmente pessoa, é por vezes dolorido, uma vez, que nos vemos frente à verdades que parecem insuportáveis, mas são esses momentos em que a real pessoa torna a vir, deixa os rótulos, as exigências, os slogans e é apenas SER. Um músico americano, Jim Morrisson, soube bem retratar essa angústia da existência e essa procura por si mesmo, a briga com o tempo, com a imagem, dizendo em trecho de sua poesia:

(…) Desista de seus votos, desista de seus votos

Salve a nossa cidade, salve a nossa cidade

Agora mesmo

(…) O futuro é incerto e o fim está sempre perto. (…)

Não é possível encontrar-se sem perder-se, e esse processo é doloroso, mas engrandecedor, revelador. É a descoberta da tomada de consciência livre de ser humano. É o momento de encontro com si mesmo.

“Uma pessoa que está mais aberta a todos os elementos de sua experiência orgânica; uma pessoa que está desenvolvendo uma confiança em seu próprio organismo como instrumento de vida sensível; uma pessoa que aceita o foco da avaliação como residindo dentro de si mesmo; uma pessoa que está aprendendo a viver em sua vida como um participante em um processo fluido, continuo, em que está constantemente descobrindo novos aspectos de si mesmo no fluxo de sua experiência. Esses são alguns dos elementos que e parecem estar envolvidos em tornar-se pessoa.” (Carl Rogers, 1995: 140)

Bibliografia consultada

BOAINAIM, Elias. Tornar-se Transpessoal: Transcendência e Espiritualidade na obra de Carl Rogers. Summus Editorial, 1998. p. 23-41: A psicologia Humanista.

GUSMAO, Sonia Maria Lima de. A natureza humana segundo Freud e Rogers. João Pessoa: 1196.

NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falou Zaratustra. Tradução Alex Marins. Editora São Paulo: Martin Claret, 2005.

ROGERS, Carl. Tornar-se Pessoa. Tradução Manuel Jose do Carmo Ferreira e Alvamar Lamparelli. São Paulo: Martins Fontes, 1995