Cem anos de Carl R. Rogers. E a psicologia com isso?

Alex Sandro Alves de Azeredo

*Texto escrito em 2002.

Toda a Comunidade Centrada está festejando os cem anos de nascimento de Carl R. Rogers e eu fico muito feliz em poder neste artigo falar um pouco das contribuições que Carl Rogers deu para a Psicologia.

Infelizmente, aqui na UFES e em tantas outras universidades, pouco se ouve falar em Rogers e quando se fala, essa fala vem carrega de pré-conceito e de pouco conhecimento o que ajuda a estigmatizar a sua pessoa e o seu trabalho.

“Carl Ranson Rogers ( 1902-1987) talvez tenha sido o psicólogo mais importante do seu tempo. Numa entrevista a Psicólogos Clínicos norte-americanos, foi pedido que indicassem os dez psicoterapeutas mais influentes, o nome de Rogers apareceu no topo da lista.

No entanto, ainda mais impressionante que a sua popularidade foram as suas contribuições. Após muitos anos de trabalho dedicado, desenvolvendo uma psicoterapia verdadeiramente humanista, Rogers foi eleito, em 1947, Presidente da Associação Americana de Psicologia. Foi também o primeiro Presidente da Associação Americana de Psicoterapeutas. Rogers escreveu mais de 250 artigos e em torno de 20 livros”. ( Jonh Wood )

No dia 11 de dezembro de 1940,  Rogers faz uma conferência na Universidade de Minesota, com o título: “Novos Conceitos em Psicoterapia” onde expressou suas idéia em relação à psicoterapia. Essa data 11 de dezembro de 1940 passou a ser considerada como o dia da fundação da Abordagem Centrada no Cliente, hoje Abordagem Centrada na Pessoa.

E o que pensa Rogers em relação à Psicoterapia?

Após Rogers ter abandonado uma orientação diretiva e interpretativa de escuta dos seus clientes, optando por uma escuta mais centrada na expressão dos sentimentos do cliente, ele concluiu (através de extensa pesquisa empírica documentada ) que para se ter eficácia na relação terapêutica, para que a terapia tenha êxito, é necessário que estejam presentes seis condições, que para Rogers, são fundamentais:

Primeira Condição –  O Psicólogo parta do princípio que o cliente é basicamente responsável por si próprio, e desejar que o cliente mantenha essa responsabilidade.

Segunda Condição – O psicólogo agir sob o princípio de que o cliente tem uma forte tendência a tornar-se maduro, socialmente ajustado, independente, produtivo e confiar nessa força e não em seus próprios poderes, para realizar mudanças terapêuticas.

Terceira Condição – O Psicólogo criar uma atmosfera calorosa e permissiva, na qual o cliente esteja livre para trazer qualquer atitude ou sentimento que possa ter, não importando quão absurdo, não convencionais ou contraditórios sejam. O cliente é tão livre para resguardar sua expressão quanto para expressar seus sentimentos.

Quarta Condição – Os limites estabelecidos forem simplesmente limites quanto ao comportamento e não limites quanto às atitudes. (pode não ser permitido à criança quebrar a janela, mas ela é livre para sentir vontade de quebrar a janela e esse sentimento é plenamente aceito).

Quinta Condição – O terapeuta usar na terapia somente aqueles procedimentos e técnicas que transmitam seu profundo entendimento das atitudes expressas, carregadas de emoção, e sua aceitação delas. A aceitação do psicólogo não envolve aprovação, tão pouco desaprovação.

Sexta Condição – O Psicólogo abster de qualquer expressão ou ação que seja contrária aos princípios anteriores. Isto significa evitar perguntar, sondar, culpar, interpretar, aconselhar, sugerir, persuadir, reassegurar.

Para Rogers, se estas condições estiverem presentes, na grande maioria dos casos, haverá êxito na Psicoterapia.

Como falei no início, estou aqui para falar das contribuições de Rogers para a psicologia. Alguns o vêem como ingênuo, outros como um visionário.  Particularmente vejo  Rogers como uma pessoa que acredita no ser humano. Que acredita na possibilidade do homem alcançar seu próprio potencial. Num homem que pode ser responsável por si mesmo, que pode andar com as próprias pernas.

Penso  que Carl Rogers veio quebrar rótulos e estereótipos. Estereótipo do psicólogo que sabe tudo, onde as respostas se concentram nele, para um psicólogo que aceita o cliente do jeito que ele é, sem classificá-lo, sem rotulá-lo e sem querer moldá-lo. O psicólogo que acredita que as respostas estão no próprio cliente.

Penso que Carl Rogers contribuiu para a formação de psicólogos mais humanos, que se colocam na relação terapêutica como pessoas e não se escondem atrás de respostas e interpretações intelectuais e não se colocam como detentores do saber. Psicólogos que permitem o cliente fluir na relação e não o direcionam e nem o atropelam. Psicólogos que permitem o cliente ser o que quer ser e sentir o quer sentir, não o condenando, não o julgando.  Psicólogos que se colocam numa relação de Pessoa para Pessoa.

Cem anos de Carl Rogers. E a Psicologia com isso?

Creio que já foi dita muita coisa.  Mas se mesmo assim a pergunta persiste e a resposta continua vazia, eu e todos os que acreditam na Abordagem Centrada na Pessoa, toda a comunidade Centrada, já temos nossas respostas e estaremos batendo palmas para Carl Rogers e reverenciando-o e esperando que essas palmas façam eco algum dia e em algum lugar, mesmo que isso dure mais cem anos.