A Aldeia de Arcozelo.

Agripino Alberto Domingues

*Texto escrito em 1995.

A Aldeia de Arcozelo foi o primeiro Encontro de Comunidade, ao longo de quinze dias, com participação de Carl Rogers e sua equipe de La Jolia e mesclada com brasileiros já experimentados. Escrito no início da Segunda semana do evento, num caderno onde Luiz Alfredo colhia depoimentos espontâneos, num momento quente (muito quente) do Encontro, este texto, foi produzido no meio da experiência, em um momento que agora entendo como de reestruturação após o caos. Resgatado carinhosamente dezoito anos depois, divido com amigos um fato. Decisivo. R J- 1977

Desligadas as máquinas, passagem na mão, pé na estrada. Objetivo, um local chamado Arcozelo. A coisa me soava como se viesse da terra de Camões. Na rodoviária (São Paulo), acima do burburinho, entre uma volta e outra, Aldeia de Arcozelo (1) pintou no ar. Juro que ouvi. Comecei a ensimesmar se todo mundo que estava ali iria se transferir para tal da Aldeia. No Rio, na rodoviária, eu já buscava identificar visualmente os participantes ou os meus companheiros na “coisa”. Sentado  no meu canto estratégico tentava, com os olhos, absorvê-los

Duas ou três aproximações no nível do social, social nada mais. Como vai, de onde veio, o que faz, você é Rogeriano (2). Aliás, essa palavra era o prato do dia, todos os dias. Por vezes sentia que passava por um processo de catequização . Creio que até poderia dividir a catequese por escolas:

Rogeriana – tornar-se pessoa, assumir-se, congruência, “deixar-se levar pelos sentimentos”, ser-se.

Espiritualista –“por que Deus”….,”por Cristo”, ”recebi a missão de…”

Crítica- “pô… não é nada disso”, “continuo na minha” , “isso enche o saco”.

Lúdico Recreativo- “vamos tomar mais uma”, “onde abunda sobra”.!

Muita mulher, pouco homem. Três mulheres para cada homem, segundo as estatísticas semi-oficiais. Um mulherio muito bem representado. As hipóteses assomavam à cabeça, não consigo pré-hipotetizar mais. As coisas caminham a uma velocidade tão grande que não consigo agarrar tudo. Confesso que, depois de três anos afastado da psicologia (do mundo dos homens), o vocabulário desusado me obrigava a caminhar para trás no tempo, buscando na memória dos bancos da Universidade o significado preciso dos termos. “O rigor e a precisão da linguagem são fundamentais para o cientista”. Cientista? Psicólogos? Psiquiatras? Um monte de figurões e figurinhas.

Em todos, em quase todos, podia sentir uma vontade muito grande de não-sei-o-que. Aquilo me contagiou. Montado o acampamento, feito o reconhecimento cuidadoso  das características  do local, maravilhoso. Na primeira noite, caminhava por uma das alamedas, cruzei com um casal. Ela mulher muito bonita, me fuzilou com dois faróis azuis, que gelou-me a espinha. Opa!

Primeiras aproximações- cautelosas, despojadas, ansiosas- as minhas se resumiam a vestir visualmente o que me cercava. Olhos e ouvidos atentos, cabeça aberta, boca fechada. Exercício de silêncio, batizou alguém num dos  grupos . As atividades foram divididas, grupão, grupinhos, grupos de criação de interesse , de desinteresse. Grupo de quase tudo. Até agora  não consigo ver nada aos pedaços. Sinto um grupão só. Uma grande massa que tenta se amoldar, misturar, e principalmente sentir e sentir-se.

Os medos, expectativas e desejos eram indisfarçáveis . As coisas, e não acho outra palavra para dizer, aconteciam com uma força que ás vezes me punham na defensiva. Até onde essa gente toda quer ir?

Os nomes, tantos, que se misturam na cabeça . A partir do segundo dia, as pessoas, com exceção das já anteriormente conhecidas, passei a chamar de gente.

O olho clínico, cuidadosamente treinado, me fornecia uma enxurrada de informações que tornavam-se difíceis de digerir. Muitas emoções cuidadosamente colocadas, às vezes, desabamentos totais, em outras.

As estrelas faziam por brilhar. Os aspirantes à estrela esforçavam-se mais ainda.

Os primeiros vislumbres, fortíssimos, me foram fornecidos por uma fortíssima, dadivosa e acolhedora. A arquitetura, monástica, convida ao recolhimento.

Com velhos sentimentos do tempo do colégio Benedito, onde amarguei vários anos da minha vida inicial. Padres, monges, médiuns pais-de-santo ou filhos, sei lá, se cruzavam, e eu lá no fundo sentia como se estivessem tentando se provar que, “a minha é que é a certa, muito embora eu aceite a sua” e “eu o perdôo”.

Na minha postura de quem “se Deus existe, isso é problema dele”, me largava solto para lá e para cá.

Quando uma das pessoas foi tomada “tomada por um santo”, um pré-surto, “um surto-pré psicótico”, um sei lá não sei mais quantas coisas, foi danado (3). Enfim , quando uma das pessoas “pirou”(4), as diferentes escolas tentavam resolver o problema. A pessoa, muito forte por sinal, provocava a alternância  dos terapeutas ( psicólogos, psiquiatras, terapeutas, médiuns e religiosos).

Tive também impulso de conferir o meu santo com o dele. Fui barrado por uma mulher que descia a escada do coreto (palco do ocorrido), com o terror estampado nos olhos que me sussurrou chorando: “O pessoal lá em cima  não quer que ninguém suba”. O olhar da moça deixou-me desarranjado. O primeiro pensamento, o mais cômodo, era de uma dramatização.

No confronto das escolas, o grande vencedor foi a exaustão.

Informações complementares (1997)

(1)- Aldeia de Arcozelo- (1977)- um sítio no estado do Rio de Janeiro, onde Paschoal Carlos Magno ( presente durante todo o evento ) criou espaço dedicado a uma escola de teatro e outras artes. Fim de verão quente. Local ideal para se concentrar duas centenas ou mais de pensadores das mais variadas origens e credo. A proposta era de se fazer um encontro de comunidade, autocentrado , com a “supervisão técnica”de Rogers e seu “staff”de La Jolia.

Elemento comum: o ser humano, seu significado e o seu caminho.

(2)- A presença de Carl Rogers ( o grande mito, vivo) e sua equipe conferia a cada participante o direito e acesso a um experimento que jamais havia sido feito antes por aqui. Uma experiência invulgar avalizada pelo psicólogo /psicoterapeuta  mais valorizado na época . Importado  exclusivamente do Primeiro Mundo. Além de compartilhar da presença, exuberante e ótima , de um Mestre, havia com certeza a intenção pré-deliberada de expor na vitrine armada, suas capacidades e desejos. Algumas delas incríveis.  Pais-de-santo, médiuns (vários), religiosos (muitos), sensitivos (a maioria), cépticos (entre eles eu), aproveitadores(denunciados) e um penetra (consentido). Duas centenas, ou mais, de pessoas, voluntariamente dispostas a passar duas semanas reclusos, e, o mais difícil, convivendo como quiser (ou conseguir). Sem regras e sem “tem que”. Aos desavisados, uma ousadia. Aos iniciáticos, um laboratório. Aos que gostam da coisa, uma viagem. A todos que lá estiveram, uma loucura (no mais amplo sentido da palavra).

(3)- O “encarnado” citado desistiu de ocupar toda a cena, exigindo a presença de Rogers, quando Décio um atlético psiquiatra carioca, com certeza um dos mais fortes do grupo, respondeu-lhe afetuosamente, aos dois abraços estranhos, com dois e duas “porradas” nas costas, com muita raiva e respeito.

O desencarnado se agacha, balbucia algo de ininteligível, e engatinha para se aninhar numa posição fetal no meio de seus acólitos. Crises convulsivas de choro. Pasmo geral, silêncio pesado. O desconforto é  trabalhado horas a fio, varando a madrugada. Discute-se a loucura profundamente.

(4)- Os sentimentos e sensações afloram, sem controle, passando de uns participantes para outros. Uma estranha energia circulava naquele grupão. Uma “piração” (estado alterado de consciência) contagiava a todos. Esse “estado” é provocado por uma  série de ingredientes: a alteração dos ritmos biológicos de comer, de dormir e de higiene, a alteração das rotinas diárias individuais e principalmente o confinamento voluntário que propiciava intensamente a hiper estimulação dos sentidos e dos sentimentos individuais levando às relações interpessoais potencializadas.

Neste caso a presença de Rogers (e de um sem número de tratadores profissionais de loucura), encorajava os que precisavam enlouquecer e os que foram lá para isso. Os primeiros sintomas desse “estado alterado de consciência” são declarações da tipo – o que acontece aqui é diferente do que acontece lá fora. Como se no Grupo se vivesse uma outra realidade, se comparada com o que acontecia lá fora (realidade externa).

À partir daí, as exposições, por mais estapafúrdias que sejam, passam a Ter um certo sentido. O sentido de ser a característica individual do outro é que nos diferencia tanto. Entrar em contato com essa individualidade e aceita-la como verdadeira no outro é o primeiro passo para o entendimento dessa “piração”.

O alívio começa com a percepção que naquela loucura toda, os outros eram bem mais pirados do que eu. Os que encarnavam entidades, os que falavam com Cristo, os que se viram em vidas passadas e os que se projetavam no futuro; buscavam seus atalhos para o entendimento, com muita conversa e compreensão.

Pela manhã as coisas vão se re-arranjando aos poucos e tudo continua. Aos trancos e barrancos como existissem duas realidades distintas; a diurna e a noturna.

Ao final, o que me parece agora, é que fomos todos mexidos: os inconformados se inquietaram, os aquietados se mexeram; e os cépticos (como eu ) saíram de lá com material suficiente  para pensar pelo resto de suas vidas. Com certeza, repensar e criar um novo conceito, mais próximo da realidade, do que possa ser “sentir-se-bem”. A aprendizagem do posso, se quero; ao invés do “tem que”.

Grupo de encontro pode ser um caminho dessa aprendizagem, nada fácil, de simplesmente sentir-se melhor consigo mesmo e com os outros.

A certeza que viver é morrer aos poucos. A validade de ser humano, é valer-se disso. Procriar-se.

AGRADECIMENTOS:

Rachel Léa Rosenberg –  Mestra, sábia, amiga, cúmplice, companheira, que muito me aproximou de mim mesmo.

Luiz Alfredo – pelo encontro, por ter proposto e guardado esse texto dezoito anos, e principalmente por se propor a  ser o meu irmão querido.

Carl (Caos) Rogers – senhor de idade e de idéias que bagunçou minha cabeça, e me impediu de me tornar mais um psicanalista incongruente.

Oswaldo de Barros – meu primeiro mestre nessas coisas, meu velho de guerra.

Dario- companheiro de risos e choros, de muitos encontros e espantos.

Bandeira – empreendedor incansável, precursor, cavaleiro andante da abordagem tupiniquim.

Valéria Amorosino do Amaral – companheira, mãe de meus filhos e que segura comigo esse rojão, do início. A certeza de que sem ela nada disso seria assim.

E outros tantos que vem se multiplicando, por aí.