Discutindo a Abordagem Centrada na Pessoa

Entrevista concedida por Rogério Christiano Buys  em 1995 ao Jornal da Abordagem Centrada na Pessoa (Informativo da  Associação Rogeriana de Psicologia).

Discutindo a Abordagem Centrada na Pessoa.

ACP: Uma dificuldade comumente enfrentada por terapeutas iniciantes é a dúvida do cliente em fazer terapia que se expressa com comportamentos de marcar sessões e não comparecer, chegar atrasado ou até mesmo questionar verbalmente a validade do processo terapêutico. Como ajuda-lo?

ROGÉRIO: A decisão de fazer terapia não é uma decisão fácil. Todo cliente, ou quase todos, têm dificuldade em manter a decisão, mesmo depois de tomada. Então, as dúvidas e vacilações são comuns. O terapeuta deve estar ciente disso e ajudar seu cliente a tornar a decisão de fazer  terapia, quando ela é autêntica, mais consistente. Para isso é necessário que o terapeuta esteja seguro de sua condição de terapeuta; da sua condição de ajudar essa pessoa em particular  nas circunstâncias em que ela está. A segurança do terapeuta é percebida pelo cliente, o que facilita o processo como um todo.

ACP: Observamos que freqüentemente esse conflito vivido pelo cliente gera no terapeuta iniciante sentimentos de rejeição e frustração, levando-o a se desmotivar e se comportar da mesma maneira que o cliente: faltando, desmarcando ou atrasando as sessões. Como esse comportamento do terapeuta interfere no processo terapêutico?

ROGÉRIO: É muito importante que o terapeuta não espere do cliente sua confirmação como terapeuta. É muito importante que o terapeuta seja terapeuta independentemente das condições vividas pelo cliente. Assim, o terapeuta é capaz de manter uma linha de coerência e de estabilidade mesmo que o cliente varie intensamente. Se o terapeuta varia junto com o cliente, a terapia está comprometida.

ACP: Parece que o que acontece de fato com o terapeuta nesse caso, é todo um questionamento de seu papel, ou melhor, de sua função como terapeuta, você concorda?

ROGÉRIO: Sim, mas não deveria ser assim, pois para o terapeuta o conflito do cliente em estar na terapia é a afirmação e a confirmação do processo terapêutico, portanto ratificação do terapeuta em sua função terapêutica.

ACP: Rogers demonstrou em todo o seu trabalho que algumas condições são necessárias para que uma relação seja terapêutica. Uma dessas condições é a congruência do terapeuta, que sabemos não estar existindo no momento em que o terapeuta entra em conflito  a partir de um conflito do cliente, como no caso que estamos analisando. Como fica, então, esta relação?

ROGÉRIO: Para que o cliente assuma a terapia como sua, portanto, os conflitos presentes nesta situação como seus, é necessário que não sinta esses mesmos conflitos no terapeuta para que então este possa ser realmente seu terapeuta. Quando isto não ocorre, geralmente o cliente sente o terapeuta como cúmplice em um processo que ambos vivem em condições muito semelhantes: ambos se defendem de uma situação que o ameaça. A relação assim distorcida, longe de ser terapêutica é simbiótica e alienante.

ACP: Rogers coloca também outras duas condições como necessárias para que uma relação seja terapêutica: a consideração positiva incondicional do terapeuta para com o cliente e a compreensão empática do cliente pelo terapeuta. Na situação que estamos abordando há possibilidade do terapeuta oferecer ao cliente estas condições?

ROGÉRIO: As três condições citadas – congruência do terapeuta, consideração positiva incondicional e compreensão empática – estão intimamente relacionadas. A ausência de conflitos no terapeuta quanto a estar na sessão terapêutica (congruência), pelo processo terapêutico ser a afirmação de seus objetivos e de suas motivações, possibilita que o terapeuta tenha em relação ao cliente atitude de consideração positiva incondicional pelos seus conflitos em estar na sessão, já que estes são o próprio processo terapêutico em seu desenrolar. Isto significa simplesmente que o terapeuta  aceita integralmente o processo terapêutico em sua realidade, o que possibilita a integração do conflito do cliente à sua terapia. A consideração positiva incondicional quando se efetiva, permite que o terapeuta  compreenda empaticamente o conflito que seu cliente experimenta em estar na sessão; como este conflito é vivido singularmente por esta pessoa específica em seu particular momento de vida. Aqui é importante frisar que a empatia não capta o processo terapêutico em seus movimentos, mas em seus momentos condensados em conteúdos significativos. A percepção do processo terapêutico requer outro tipo de esforço que não o empático e, oposto a este que busca a aproximação e aprofundamento, procura distanciamento perceptivo para  apreende-lo em segmentos maiores. A percepção e compreensão do processo terapêutico não é imediatamente terapêutico como a compreensão empática, diria que é meta-terapêutico, portanto alheio ao miolo da relação terapêutica e não atingível por esta, como já afirmei anteriormente. A relação terapêutica produz o processo terapêutico e não vice-versa. Porém, a apreensão quanto ao livre desenrolar deste processo, vale dizer, a apreensão quanto a direção que vai tomar a relação terapêutica a partir da compreensão empática profunda, pode impedir a conservação das condições terapêuticas. O medo do processo (posterior) impede as condições (anteriores) que lhe dão origem. A aceitação do processo em sua forma pelo terapeuta permite empatizar com seus conteúdos, possibilitando seu desenrolar.

ACP: Parece que estamos aqui falando de condições para que se efetivem as condições propostas por Rogers. Ao escrever as seis condições do processo terapêutico, Rogers as coloca como necessárias e suficientes para que se produzam as mudanças de personalidade. Estaríamos aqui, então, questionando a suficiência destas condições?

ROGÉRIO:  Rogers escreveu em 1957 “The Ne cessary and Sufficient Conditions of Therepeutic Personality Change”. Este trabalho, talvez um dos mais importantes e fundamentais da ACP, traduz, em termos da prática terapêutica, os princípios fundamentais desta abordagem, tanto aqueles de caráter teórico, quanto os de feição filosófica. Rogers foi, no meu entender, muito feliz na relação deste trabalho, sintetizando de maneira clara e econômica, objetivando a prática, princípios amplos e complexos. O exame deste trabalho revela que as condições se referem à qualidade da relação terapeuta/cliente ou ao “clima”(no sentido lewiniano) que nela deve existir.. Então, dadas estas condições, ocorre um processo que tem tais e tais resultados. Porém fica no obscuridade, o trabalho não nos diz, o que é necessário para que as condições (propostas por Rogers) sejam “dadas”.

ACP: Isto quer dizer que Rogers não se preocupou com estas questões?

ROGÉRIO: Duas respostas me parece. Podem ser dadas a esta questão: 1- O trabalho de Rogers não se propõe a responder esta questão, ela fica fora dele; 2- O trabalho de fato se propõe mais do que realmente dá. A primeira resposta  entendo como uma fuga da questão, já que as condições que permitem que as condições (propostas por Rogers) tenham êxito, também são condições  necessárias às mudanças terapêuticas da personalidade, ou simplificando, também fazem parte do processo terapêutico.  A segunda resposta me parece mais adequada, porquanto Rogers afirma suas condições por ele enumeradas são bastantes e suficientes. Não me parece que sejam, ainda que sejam o âmago da relação terapêutica. O próprio Rogers parece perceber a insuficiência delas quando escreve: “For constructive personality change to occur, it is necessary that these conditions  exist and continue over a period of time(…)”, Daqui se depreende que a existência das condições  independem de sua continuidade, ou seja, são coisas diversas- Não se implicam mutuamente porque, se assim fosse, seria desnecessário referir-se a ambas.

ACP: Se as condições necessárias à continuidade das condições terapêuticas propriamente ditas e os fatores que nelas podem intervir negativamente não podem ser diretamente terapeutizáveis pelas condições da terapia propostas por Rogers, como podem elas ser abordadas?

ROGÉRIO: Pelo cuidado que deve circunscrever o processo terapêutico e suas condições de realização. Permita-me escrever, parafraseando Rogers, as seis  condições que considero necessárias para que as “Condições Necessárias e Suficientes das Mudanças Terapêuticas da Personalidade”sejam efetivas no caso que discutimos nesta entrevista: 1- Que duas pessoas estejam em contato numa freqüência estável sem variações. Que o ritmo das sessões se mantenha constante para que a terapia seja um processo, 2- Que a primeira pessoa, o cliente, tenha dúvidas e conflitos quando ir as sessões; que sua presença nelas nunca seja algo tranqüilo e rotineiro, 3- Que a segunda pessoa, o terapeuta, ao contrário, não tenha nenhuma dúvida ou conflito quanto a estar nas sessões; que a sua presença nelas seja sempre clara e inequívoca, 4- Que o terapeuta tenha em relação ao cliente consideração positiva incondicional com relação as suas faltas e atrasos de maneira que estas possam ser integrados terapeuticamente à terapia. 5- Que o terapeuta tenha compreensão empática  do quadro de referência interno do cliente com relação a seus conflitos em estar na terapia, 6- Que o cliente perceba, maximamente, o rigor do terapeuta  quanto a realização das sessões ou a condição 3.

ACP: Que outras dificuldades o aluno traz mais freqüentemente à supervisão?

ROGÉRIO: A dificuldade mais constante e talvez a mais difícil de trabalhar é a compreensão do senso comum interpessoal que o terapeuta iniciante, as vezes, reluta muito em deixar. A compreensão terapêutica, como Rogers descreve, não é uma compreensão do senso comum, como nós estamos acostumados a compreender nossos amigos. Ela é diferente e específica da relação terapêutica. Isso não é muito fácil de explicar ao terapeuta iniciante.

ACP: Com relação a supervisão de facilitadores de grupo, poderia-se dizer que existem dificuldades mais freqüentes? Quais seriam?

ROGÉRIO: Com relação a facilitação de grupos, uma das dificuldades mais importantes diz respeito a própria natureza do trabalho com grupos. Nos caso dos grupos intensivos, a supervisão pode ser durante o processo do grupo ao seu final. Nesse caso a supervisão é sobre um trabalho que já acabou, que já não tem tensão. Se a supervisão for dada durante o grupo, ou o supervisor faz parte do grupo ou está fora dele. No primeiro caso a relação entre supervisor e facilitador no grupo pode interferir na relação da supervisão, distorcendo-ª No segundo caso, o facilitador está muito envolvido com o grupo e tem com o supervisor (que está fora dele), relação muito fria, distorcendo, de outra forma, a relação da supervisão. A facilitação de grupo é um trabalho difícil e que acarreta problemas de supervisão também difíceis.

ACP: Em seu livro “Supervisão de Psicoterapia na Abordagem Humanista Centrada na Pessoa”, você orienta e sistematiza o trabalho de supervisão. O que o motivou a escrever esse livro? Você considera deficiente o trabalho de supervisão que vem sendo praticado pelos profissionais da ACP?

ROGÉRIO: Eu acho deficiente a maneira como é tratada a supervisão de psicoterapia na ACP ou em qualquer outra terapia. A supervisão não tem tido um tratamento adequado. Não há pesquisa sobre supervisão; nenhuma sistematização nessa área. No entanto sabemos que a supervisão é fundamental para a formação do terapeuta. Eu acho que os terapeutas geralmente são bons supervisores, mas não devemos contar só com o acaso. É preciso, me parece, trabalhar mais a supervisão como uma atividade própria e diferente da psicoterapia.

ACP: Excluindo o caso da supervisão, como você avalia a produção teórica da ACP com um todo? É satisfatória?

ROGÉRIO: Acho que não. Acho que está muito longe de ser satisfatória. No Brasil não existe nenhuma revista especializada na ACP ou em psicologia humanista com circulação nacional ampla.

A produção pessoal também é muito pequena, quase inexistente. Mesmo considerando o pequeno número de pessoas atuando na ACP, penso que a produção poderia ser maior.

* Rogério Christiano Buys é diretor técnico do Centro de Psicologia da Pessoa, professor do Instituto de Psicologia da UFRJ e autor do livro “Supervisão de Psicoterapia na Abordagem Humanista Centrada na Pessoa.

FONTE: Entrevista concedida por Rogério Christiano Buys  em 1995 ao Jornal da Abordagem Centrada na Pessoa (Informativo da  Associação Rogeriana de Psicologia), páginas 4 e 5.