Discutindo a Abordagem Centrada na Pessoa

Entrevista concedida por Afonso Fonseca em 1996 ao Jornal da Abordagem Centrada na Pessoa (Informativo da  Associação Rogeriana de Psicologia).

Discutindo a Abordagem Centrada na Pessoa.

Jornal ACP- Como se originaram os Encontros Latino Americanos?

Afonso- Em primeiro lugar eu quero agradecer o convite de vocês e a oportunidade para esta entrevista. Para mim é sinceramente uma alegria participar das atividades do Jornal da ACP e da ARP. Em particular pelos amigos que estão na ARP e pelo fato de a ARP, com tão pouco tempo de vida, já ter sido tão importante para o desenvolvimento da ACP entre nós: pela integração e participação de seus membros nos encontros, pela realização do Primeiro Fórum Brasileiro, por este jornal, e pela presença diferenciada, enfim, no ambiente da ACP.

Em termos práticos, os Encontros Latinos surgiram no primeiro Fórum Internacional da ACP, em Oaxtepec, no México em 1982, quando um grupo de latino-americanos fizeram uma “quase rebelião” pelo direito de afirmarem sua identidade no âmbito daquele encontro e da própria ACP, e tratar também dos seus próprios temas, de suas realidades e de suas condições humanas particulares, diferentes do que era a normalidade daqueles encontros, referenciada basicamente numa realidade de primeiro mundo. O grupo latino-americano tomou a iniciativa de fazer um encontro latino-americano dentro daquele fórum, encontro este que ficou conhecido como “O Grupo Latino” e que se reuniu durante todos os dias do fórum. Este grupo latino do Fórum de Oaxtepec decidiu então criar o “Encontro Latino da ACP”que reuniu-se pela primeira vez, no ano seguinte, no Brasil, em Petrópolis, no estado do Rio. O Encontro Latino criou a partir daí a sua tradição e tivemos os encontros de Buenos Aires, de La Pedrera, no Uruguai, de Sapucaia Mirim, no Brasil, de Mar del Plata, do Lago de Titicaca, de Maragogi, e agora de Águas Calientes.

De um modo geral a ACP tem um ambiente muito favorável na América Latina, atende as necessidades importantes, e não podia ser gerida e influenciada meramente a partir das tendências do primeiro mundo. Carecíamos de fundar um espaço próprio de produção de nossa identidade e de nossos referenciais e o Encontro Latino constituiu-se um núcleo fundamental deste processo.

Jornal ACP- Quais as implicações das diferenças político-sociais nesses encontros?

Afonso- As diferenças políticas e sociais são inerentes a qualquer agrupamento humano, assim como as suas relações, conflitos, integrações, etc. O que é mau é quando essas relações permanecem num nível incompatível com a nossa dignidade, no nível pré-político, no nível da politicalha, ou da violência, aí inclui evidentemente a violência estrutural ou até homeopática e dissimulada, por vezes, até uma violência ou totalitarismo doce. No desenvolvimento natural da ACP entre nós e em termos político e sociais, o Encontro Latino, assim como o Nordestino, o Brasileiro, o Fórum Internacional e outros, criam especificamente a nossa pólis. Ou seja, um espaço institucional onde essas diferenças políticas e sociais podem ter um momento privilegiado de encontro, podem relacionar-se politicamente, podem transcender-se, podem reiterar-se, podem recriar-se. As diferenças e as dinâmicas de suas relações são fontes de nossa criatividade pessoal e coletiva. Daí que temos visto, contra todas as expectativas de algum tempo atrás, um insuspeitado vigor no desenvolvimento da ACP no Brasil e na América Latina, processo que não observamos em muitos lugares do mundo.

Jornal ACP- Que contribuições os Encontros Latino-Americanos vêm trazendo do ponto de vista teórico para a ACP?

Afonso- Não creio que a contribuição mais importantes dos encontros seja ao nível da produção teórica. Ainda que eu ache que esta dimensão teórica seja fundamental, e ainda que possamos reconhecer uma importância muito grande dos encontros em termos de desenvolvimento de nossas formulações teóricas. Temos que considerar, todavia, que a cultura de uma comunidade de pessoas que partilha de uma abordagem como a ACP não carece apenas dos aspectos teóricos. Acho simplório contrapor simplesmente teórico X vivencial. Eu diria que a teoria é importante, é parte de uma cultura mais ampla que envolve aspectos que não são teóricos, como o compartilhamento e a assunção, a integração, pessoal e coletiva de valores, de atitudes, de uma epistemologia, de uma filosofia de vida. Assumir e integrar pessoal e/ou coletivamente estes aspectos culturais da abordagem envolve mais do que a produção teórica, ainda que estas sejam fundamentais. E os encontros tem sido espaços fundamentais de elaboração, de integração e de generalização destas dimensões da cultura da abordagem que não são especificamente teóricas. Em especial a aculturação de novos participantes que tem nos encontros um momento privilegiado. Tudo isto implica uma concepção nova e um padrão novo na cultura da abordagem, que carecem de ser compreendidos e potencializados, assim como a importância dos encontros no contexto destas novas tend6encias culturais da abordagem.

De um ponto de vista teórico, que ó o da pergunta, o Encontro Latino nos permitiu repensar um conceito limitado de pessoa presente na abordagem, um conceito que não contemplava as dimensões sociais da pessoa e concebia-a meramente como as pessoas das sociedades afluentes. Pensar a transindividualidade da pessoa quando concebemos a pessoa passou a ser uma questão fundamental para nós outros. Por outro lado, tem havido todo um movimento de uma arqueologia dos fundamentos da ACP, no sentido de clarificar, reiterar e explorar as suas raízes fenomenológico existenciais. Isto nos dá condições de fazer um tipo de apropriação não alienada dos fundamentos teóricos da abordagem, processo que se desenvolve intensamente no Brasil e na América do Sul.

Jornal ACP- como você viu este oitavo encontro?

Afonso-  Eu gostei muito do Encontro de Águas Calientes. Senti um encontro maduro, onde todas estas dimensões de que falo acima pareceram expressar-se de um modo vigoroso. A dimensão teórica pareceu-me cada vez mais desenvolvida e criativa. As dimensões não teóricas pareceram-me igualmente vigorosas, intensas e criativas. Do ponto de vista vivencial, acho que houve uma incrível integração entre as intensidades dos processos pessoais vividos pelas pessoas e o processo do encontro enquanto tal. O grupão foi muito caloroso e acolhedor para com as pessoas em seus processos vivenciais.

Reiterou-se para mim a necessidade de um zelo para que possamos fazer com que estes encontros sejam geridos estritamente a partir dos princípios e filosofia do trabalho com grupos da abordagem. Há uma necessidade cada vez maior de que a Comissão de Organização faça o seu trabalho consciente de que este é o de prover a infra-estrutura do encontro. A estrutura o encontro mesmo cria. Há a necessidade, em particular, que os membros da comissão não queiram trocar o seu trabalho na infra-estrutura por poder de centralização e de manipulação ao nível do desenvolvimento do encontro. O trabalho dos membros em geral da comissão das Águas Calientes foi muito bom. Criaram uma boa infra, foram super-solícitos e, de um modo geral, não queriam negociar isto com poder para centralizar e manipular o encontro. Acho que o encontro já tem condições de se proteger dos power-seekers, mas isto depende de zelarmos para que prevaleçam os princípios e a filosofia do modelo de trabalho com grupos da abordagem na gestão e desenvolvimento dos encontros.

JORNAL DA ACP- Como explicar a maioria esmagadora de brasileiros nesse encontro?

AFONSO- Eu acho que temos que considerar, em primeiro lugar, que o Brasil tem uma população de cento e cinqüenta milhões de habitantes, potencialmente carentes de ACP, esperamos. Os demais países da América Latina têm populações bem menores, este eu acho que é um fator. Por outro lado, a abordagem teve e tem tido um desenvolvimento diferenciado no Brasil. Houve sempre um interesse muito grande pela abordagem e, no que pese haverem às vezes tendências de fechamento da abordagem em pequenos grupos, a tendência tem sido a de uma abertura e uma generalização a um número cada vez maior de pessoas. Isto aconteceu desde os trabalhos de Rogers, John Wood e Maureen Miller no Brasil, com os trabalhos de Raquel Rosemberg em São Paulo e com o desenvolvimento dos encontros. Eu acho que estes são fatores importantes para que tivéssemos tido mais de cem pessoas em Águas Calientes. Um aspecto importante, certamente, é que nós brasileiros sabemos como ninguém ver num encontro algo mais do que um congresso.

JORNAL DA ACP- Como você vê o futuro próximo do Encontro Latino?

AFONSO- Diante do que eu falei acima, dá para entender que vejo com bastante otimismo e entusiasmo.

Teremos o próximo encontro na Costa Rica, acho que em 1988. Preocupa-me apenas um pouco a idéia de que, em função de haverem poucas pessoas da ACP na Costa Rica pensemos em criar uma Comissão Internacional de Apoio. Pode ser necessário, mas acho que precisamos ter em mente que este encontro tem mantido o seu frescor e o seu caráter desburocratizado exatamente porque não tem nenhuma comissão supra-nacional ou fixa que seria facilmente burocratizável. O caráter de descentralização da organização do encontro parece-me fundamental e acho que precisamos zelar por ele. O fato de que cada encontro é organizado por uma comissão de um País diferente é um bom antídoto contra power-seekers que sempre aparecem em qualquer grupo tentando manipular e controlar o encontro. No mais, vamos à Costa Rica, que dizem que é um País lindo.

JORNAL DA ACP- Como você vê o próximo Fórum Brasileiro da ACP no Rio Grande de Sul?

AFONSO- Com muito otimismo, também. O rio Grande do Sul perece ter um movimento bastante efervescente em termos de ACP e tem sempre uma contribuição muito marcante. É uma grande lacuna que nenhum desses encontros tivessem acontecido ainda lá, a contribuição deles será sem dúvida muito rica.