Dario Oliveira

Foto cedida por Luiz H. de Sá

DARIO DOS SANTOS OLIVEIRA (1914-1985)

(Texto de Luiz Henrique de Sá – JUNHO DE 2002)

RÉQUIEM PARA UM REVOLUCIONÁRIO SILENCIOSO

“Os humanos têm o potencial não só para

criar vidas felizes para si mesmos, mas

também  para ajudar outros seres.”

S. S. Dalai Lama

Existem pessoas que são especiais pela grandeza de sua obra: escrita, pintada ou esculpida. Outras se notabilizam pela capacidade de transmitir conhecimentos, outras ainda são reconhecidas por sua capacidade empreendedora, de executar tarefas, de colocar em prática idéias e projetos. Mas existe uma classe especial de pessoas que se destacam não pelo seu fazer, mas pelo seu Ser, indiscutivelmente Dario pertencia a essa classe.Essas pessoas geralmente passam pela vida sem fazer alarde, sem chamar muito a atenção, contentando-se simplesmente em realizar cada ato seu de forma impecável, em fazer o que deve ser feito a cada momento com cuidado e extremo zelo, estando presente com todas as fibras do seu Ser.Essas pessoas tornam o mundo mais real, mais belo e mais justo.

A profissão de psicoterapeuta exige além de sólida formação acadêmica uma outra que é conseguida através do passar dos anos aonde vamos corajosamente assumindo nosso estilo pessoal que traduz nossas crenças, valores e modo de Ser.Conseguir expressar essa formação de maneira transparente, consistente e tranqüila era um dos atributos desse querido psicoterapeuta.Tendo sido dentista antes de se dedicar ao estudo da Psicologia, Dario fez a escolha de se tornar psicólogo ouvindo acuradamente aos seus clientes antes e depois dos tratamentos dentários, o que acabou por fazer com que ele ouvisse seus próprios apelos para que não desperdiçasse sua aptidão psicoterápica.

É comum que durante nossa formação profissional nós nos deixemos influenciar por pessoas mais experientes e que são reconhecidamente competentes naquilo que fazem, então muitas vezes nossos psicoterapeutas nos servem de modelo, mesmo que sejam extremamente cuidadosos para evitar qualquer contaminação de valores pessoais ou de estilo profissional.Todas as linhas de psicologia têm seus ícones e seus “pais” e de uma forma natural o reconhecimento daqueles que melhor traduzem as diferentes propostas acaba por acontecer, é o caso de Dario, talvez o psicoterapeuta brasileiro que melhor traduziu com sua postura o ser Centrado na Pessoa e que sugestivamente nos recebia em seu aconchegante consultório naquela vilazinha em Ipanema onde o numero da casa era o Um !!!

Dario era simples, cientificamente tão elegante quanto a própria teoria centrada e isso era vivido a cada momento como quando ao acabar de chegar do Rio de Janeiro para mais uma etapa do curso avançado da ACP, no estacionamento em Salesópolis, ele me dizia: Sabe Luiz, as pessoas correm muito e se arriscam, eu venho mais devagar e invariavelmente chego cinco,dez minutos depois deles.Estava se referindo a outros participantes que também haviam saído do RJ junto com ele.Não havia crítica ao modo de ser dos outros apenas uma escolha pessoal que encerrava cuidado consigo mesmo.

Muitas vezes era incompreendido, como em um grupão, no workshop de Pirassununga, onde uma amiga e experiente psicoterapeuta se irritou por achar que a compreensão demonstrada por ele frente ao quadro fortemente mobilizador por que passava o grupo era insensibilidade. Depois de atacar vigorosamente ela acabou por reconhecer que estava naquele momento muito tocada e que Dario simplesmente continuava sendo como sempre: uma pessoa que atingiu um desenvolvimento tal que se portava como um lago onde a superfície de suas águas se mantinha tranqüila, independente do céu claro e do sol forte ou das nuvens carregadas que anunciam chuva!Esse tipo de equilíbrio lembra as comparações feitas entre ACP e Filosofia Oriental onde é muito valorizada uma postura de equanimidade e de não identificação com os estados emocionais.

De outra feita ainda, ao nos encontrarmos em uma festa ele comentava: – Nós podemos usufruir desses eventos sociais porque quando nos sentamos em nossas cadeiras de trabalho (se referindo as sessões de psicoterapia) nós sabemos o que temos de fazer. Assim de maneira informal nos eram passados princípios básicos e diretrizes de atuação profissional.

Provavelmente outros colegas podem contar estórias que já fazem parte do folclore da ACP sobre ele e que enriquecem nosso acervo de tradição oral.

Talvez o quadro que melhor traduza o reconhecimento da importância da atuação de Dario para a formação de tantos de nós seja a sua partida naquele fatídico dia de junho de 1985. Estávamos em Brasília, as mais de duzentas pessoas que participavam daquela comunidade, reunidos em uma sala apelidada de “aquário” por ser toda de vidro, ouvindo Maria Bowen falar quando chegou a notícia da morte de Dario; primeiro um silêncio sepulcral, depois um choro aqui, outro ali, num crescendo que tomou conta do grupo.Após muito tempo, sob um clima de consternação alguém puxou uma reza, acho que Rachel Rosenberg disse algumas palavras e terminando aquela sessão de grupo a voz emocionada de Carl Rogers:- Eu gostaria de ter uma despedida tão comovente e querida como essa que acabei de presenciar!

A comunidade da ACP no Brasil estava de luto, era uma grande perda! Nos deixava, porém todo o seu ensinamento, vivido em cada evento, em cada sessão,  em cada encontro, com toda a sua inteireza e sabedoria.

Obrigado Dario, por sua disponibilidade, pelo seu carinho e pelo seu cuidado com cada um de nós que pudemos tê-lo.Seu legado com certeza ainda vai, através dos tempos, contribuir para a consistência dessa abordagem chamada de Centrada na Pessoa.

Petrópolis

Outono de 2002

Luiz H. de Sá