Escípio da Cunha Lobo

Foto cedida por Maria Luiza Rocha de Andrade

ESCÍPIO DA CUNHA LOBO

(Texto elaborado a partir das idéias e contribuições dos membros do Grupo Mineiro de Psicologia Humanista, organizado por Juliana dos Santos Lopes e revisado por Cláudio Alberto Ferreira. – JUNHO DE 2005)

ALGUMAS PALAVRAS SOBRE O ESCÍPIO

Quando pensamos em realizar esse evento, nós do GRUMPSIH,  tínhamos em mente 2 objetivos: promover e registrar mais um momento de aprendizado com o Escípio, dessa forma tão especial que ele sempre teve de compartilhar suas idéias. E também de homenageá-lo, tanto pelos 40 anos de profissão, quanto por seus 70 anos de idade, que serão completados no próximo dia 11. Queremos assim, reconhecer publicamente sua importância para a Psicologia,  em Minas Gerais,  e para a nossa formação pessoal e profissional, já que temos o  privilégio de aprender e conviver com ele.

Pensamos muito sobre como falar disso. Preocupamo-nos em não desconsiderar aqueles que estão presentes a esse evento,  que talvez conheçam pouco sobre o Escípio. Mas também em não nos privarmos de falar de um ponto de vista mais pessoal a seu respeito. Achamos importante contar um pouco de sua história profissional, o que não foi nada fácil! Afinal, são 40 anos de profissão que se caracterizam por um profundo interesse pelo Ser Humano em desenvolvimento: quer seja ele, o cliente, o aluno, um grupo, um  amigo, um familiar… Por outro lado é necessário dizer também do Escípio que conhecemos. Tentaremos fazer um pouco das duas coisas e quem sabe assim, encontraremos uma síntese.

Escípio ingressou como professor,  na então Universidade Católica de Minas Gerais em 1964. Na ocasião, ainda freqüentava o curso de Psicologia como aluno e já foi convidado a lecionar a disciplina de Estatística. Algum tempo depois, passou a lecionar disciplinas na psicologia  clínica da então denominada Terapia Centrada no Cliente.

Durante seus 40 anos de PUC, Escípio foi Diretor do Instituto de Psicologia, Chefe do Departamento de Psicologia. Atualmente, é professor de Psicoterapia da área clínica e Supervisor de Estágios, dentro da abordagem humanista.

Ao longo de toda sua trajetória na PUC, Escípio manteve uma linha de trabalho coerente com alguns princípios que orientam sua atuação: um deles, muito forte, é a preocupação com a FORMAÇÃO PESSOAL DO PSICÓLOGO. Ele defende uma pedagogia baseada na aprendizagem experiencial, que entende a Educação como um processo de formação integral do aluno, não só a transmissão de conhecimentos, a aquisição de informações ou domínio de técnicas.

Escípio buscou introduzir na concepção educacional do Curso de Psicologia essa mesma orientação. Algumas ações e intervenções concretas ocorreram na década de 60, quando o Curso passou a oferecer aos seus alunos a possibilidade de submeterem-se a psicoterapia. Alguns professores, convidados por Escípio, compunham o grupo de Psicoterapeutas. Escípio também realizou grupos de formação vivencial , com o objetivo de proporcionar ao aluno um encontro mais autêntico consigo mesmo e  com o outro, através de relações terapêuticas experimentadas em grupo. Outra atuação concreta de Escípio junto aos alunos, foi a fundação do Primeiro Diretório Acadêmico de Psicologia de Minas Gerais. Escípio participou ativamente das primeiras idéias e movimentos para o estabelecimento desse espaço que, ainda hoje, carrega seu nome por  mérito e direito. O DA Escípio da Cunha Lobo.

Muitas outras ações ainda hoje contam com sua atuação dentro da PUC. Por outro lado, Escípio buscou realizar seu trabalho com a psicologia, desenvolvendo constantemente suas idéias fora da Universidade. Um dos espaços privilegiados, onde sempre fez isso tem sido seu consultório particular. Atendendo tanto individualmente, quanto a inúmeros grupos de psicoterapia e supervisão, durante todos esses anos, Escípio pôde exercitar seus princípios, em toda sua plenitude.  Foi através dessas diversas relações em seu consultório, assim como nos de outros colegas seus, que teve início um movimento de aglutinação de psicólogos humanistas atuantes em Minas Gerais. E em 24 de abril de 1993, fundou-se o GRUMPSIH, sendo Escípio um dos principais fomentadores do grupo até os dias atuais.

Sua busca pela formação pessoal e profissional do Psicólogo também toma corpo com a fundação do Instituto Humanista de Psicoterapia em 1996: uma Instituição por onde já passaram inúmeros psicólogos buscando a continuidade de sua formação. Entendemos que é neste espaço que Escípio vem concretizando seu sonho de promover multiplicadores das atitudes e princípios humanistas, afim de atingir uma parcela maior da população.

Como vêem, é um longo percurso, caracterizado por atitudes pioneiras e uma constante inquietação no que diz respeito à nossa formação, que ultrapassa os muros acadêmicos. Seriam esses elementos suficientes para justificar o grande respeito e consideração que professores, funcionários e alunos têm por ele?

Pareceu-nos que não… Como havíamos dito, não foi nada fácil escrever sobre o Escípio. Nos perguntávamos sobre o que falar. Aspectos acadêmicos? Momentos de sua vida como professor? Sua vida pessoal?

Como descrever para vocês o significado de um Encontro com o Escípio? Pois é só nesse Encontro  de pessoa- para – pessoa,  nesse contato de coração – para – coração,  que é possível dizer de seu significado, de sua  importância para nossa vida pessoal e profissional.

Nos deparamos, então, com a seguinte pergunta: O que o Escípio precisaria saber de nós a seu respeito? Qual é seu significado para cada um de nós?

Assim, como você nos ensinou, Escípio,  tentamos encontrar, em nossa experiência vivida, nos sentimentos de cada um de nós,  o essencial: aquilo  que o define como único, singular. Convidamos todos a ouvirem  um  pouco do que encontramos e do que conseguimos sintetizar  numa produção a várias mãos.

O Escípio é sempre o Escípio, em qualquer lugar que ele esteja: na sala de aula, nas supervisões, nos atendimentos, nos grupos de encontro, nas confraternizações… Isso nos permite conviver com a Pessoa, não só com o professor ou o terapeuta ou com o supervisor.

E como aprendemos com essa Pessoa! Com a sua forma de ensinar, vivencial. Não aprendemos somente com aulas ou exposições teóricas e discussões de “casos”. Aprendemos, principalmente, na relação, no encontro que ele sempre nos possibilitou. É a aprendizagem vivencial, de cor, como você mesmo diz: “de coração”.

Aprendemos a encontrar sabedoria nas coisas simples, como nos ditados populares. E, inspirados em sua postura, nos atreveríamos a mudar um deles. No lugar de “Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. “Faço o que eu digo, faça como eu faço”. É assim que o percebemos: seus ensinamentos não estão  só em técnicas ou conceitos teóricos, estão em sua atitude. O Escípio é,  vivencia aquilo que  ensina e que acredita. Eis um dos princípios básicos  de uma psicologia mais humana, aprendido e compreendido com você, Escípio,  na relação.

Por falar em atitude, há algo que vivenciamos enquanto alunos ou supervisandos. Um respeito profundo por parte do Escípio, pelo estágio  de desenvolvimento no qual nos encontramos. Tanto  do ponto de vista  profissional quanto pessoal. Escípio busca afinar seu passo ao  passo do aluno. Mesmo enxergando lá na frente, não nos atropela; permite-nos e facilita-nos o nosso próprio caminhar.

Mas não pensem que, com isso,  ele deixa de ser exigente! “É boa a sua  intervenção mas, pode ser um pouco melhor”, ou,  “Estamos aqui em um laboratório, vamos tentar buscar a melhor palavra para compreender o que essa pessoa está vivenciando.” Ou seja, ele acredita que podemos sempre oferecer um pouco mais e melhor, otimizando nossas intervenções. Sabemos que você, Escípio,  faz isso consigo mesmo: obcecado pelo aprimoramento, pela busca constante de formas mais profundas e melhores de ajudar no processo de desenvolvimento humano. É um lapidar de diamantes.

Encontramos nesses momentos, sua inteligência, sua sensibilidade, gotas de sabedoria oferecidas com benevolência. Escípio transita livremente por diferentes contribuições teóricas, sempre buscando uma síntese. Sem no entanto perder de vista seu fio condutor, sua base humanista. Assim, ensinou-nos que é possível uma integração.

Aprendemos, também com o Escípio,  a estarmos atentos ao que vem de nós, nossa intuição. A confiar em nossa sabedoria pessoal, visceral, organísmica. Em nosso próprio ser. Pois, sentimos que ele acredita em cada um de nós, em nosso potencial, antes mesmo de  nós acreditarmos nisso. Escípio busca sempre  oferecer-nos condições suficientes para o desabrochar desse potencial.

Ensinou-nos a sermos autênticos, humanos e ao mesmo tempo, terapêuticos em qualquer situação . Aprendemos com o Escípio, a nos livrarmos de inúmeros preconceitos quanto ao exercício profissional e não obstante,  aceitarmos nossos pré-conceitos, nossas fragilidades e nossas limitações, como parte inerente ao Ser Humano.

E quem somos nós para o Escípio? Somos seu “exército da salvação”, seu livro por escrever. Sua esperança de continuidade, seus filhos de coração:  Sementes espalhadas pelo mundo, multiplicando o que vivenciamos com ele. Por isso Escípio, queremos lhe afirmar que estamos dispostos a disseminar seus princípios, suas atitudes, a “escrever” de forma vivencial seu livro. Pode continuar a ter esperanças, pois muitas sementes já brotaram, já cresceram e até já andam espalhando novas sementes. Sua eternidade já está garantida!

Quanto coisa encontramos para falar de você, Escípio! Ao buscarmos a essência , ela nos escapa, pois tem sempre algo mais… assim é a Pessoa, um acontecimento constante. Quem é o Escípio afinal? “Amigo, mestre, companheiro,  referência, mas acima de tudo, pessoa humana. Como cada um de nós.

“O homem de fala mansa, de aparente fragilidade, que se torna a fortaleza onde guardamos nossos segredos”. E que será guardado, para sempre, em nossos corações.